The Corner Club

Onde se comenta a narrativa enquanto se beberrica chá. AVISO: Segue-se conteúdo sugerido a adultos.

O Zé Lê “O Filho de Odin”, de João Zuzarte Reis Piedade – Primeiras Impressões

E eis-nos cá presentes para dar início a este projecto, em que um pobre aprendiz de tradutor madeirense, na plenitude da sua sabedoria e do seu domínio duvidoso da análise literária, procurará cometer indizíveis crimes, doravante apelidados de ‘posts’, contra a sensatez e perspicácia que qualquer pessoa desejaria de um crítico literário ou, vulgo a gíria, ‘merda’. Ou então será ele torturado pelos horrores conjurados por maus autores, até que o seu cérebro derreta e a sua criatividade mirre que nem uma rosa desprovida de água, ambas as possibilidades totalmente pensadas para, esperemos nós, o vosso deleite. Ou será ele a vomitar a dita merda, ou será ele a comê-la às colheradas. E pedir segundo prato!, que aqui ninguém desperdiça!

Caros leitores, eu sei muito bem que o título assusta. Como é possível alguém propôr-se a ler isto desta forma? Com certeza não contaram com o meu óbvio masoquismo, as doses industriais de vodka que tenho armazenados no meu armário e as cem doses de cogumelos alucinogénicos que tive de ingerir para me motivar a ler, página a página, frase a frase, com um olho crítico e, esperemos nós, literariamente competente, “O Filho de Odin”, de alguém que, daqui em diante, será carinhosamente apelidado de ‘Zuzarte’. Mas estou a pôr o carro à frente dos bois. Afinal de contas, começo a primeira parte desta série com auto-comiseração a rodos e desprezo imediato à obra do coitado do Zuzarte. “Ó Zé, que é feito da neutralizade que se quer numa análise literária? És uma bosta!”, diriam alguns de vocês. E realmente falam com pertinência. Em primeiro lugar, já não tinha grandes espectativas só e apenas com a leitura da contra-capa e das badanas. Em segundo lugar, oh meus filhos, quão pouco sabem de matéria fecal mal-cheirosa. Só o material referenciado no título dá pano para este post e mais ainda.

Antes de mergulhar na fossa, umas achegas sobre literatura fantástica no geral para explicar as origens deste livro. Portugal trata muito, mas mesmo muito mal, autores desta expressão literária. Desde a ficção científica ao mais medieval cenário tolkieniano, passando por todos os ‘punks’ que por aí andam, a literatura de géneros mais imaginativamente activos é relegada, quase na sua inteira genealogia, para um recanto de uma livraria, preferivelmente dos escuros, para os clientes não se assustarem com os ‘neckbeards’ que por lá deambulam, de olhares esfaimados de sexo e baba a escorrer pelo canto do lábio abaixo com o mero vislumbre de um joelho a descoberto. Isto, se não for considerada como algo digno apenas de pirralhada menos crescidita que gosta de perder tempo. Mas a verdade é que vende. Vende extremamente bem, melhor do que muitos pensam, não só mundo fora como cá dentro também. O sucesso de séries como “Harry Potter”, “O Senhor dos Anéis”, “Eragon” e “Crónicas de Gelo e Fogo”, motivado pela cacofonia de filmes, séries televisivas e material de marketing diverso, não passou de todo despercebido das editoras portuguesas. Podia escrever uma crónica inteira sobre a abominação que é o mercado livreiro neste país, espumando pela boca e ladrando que nem um cão castrado sem anestesia a cada frase tipografada, mas é assunto para outro dia. Resumidamente; são abutres, esmifrando o consumidor até ao último euro justificável.

Mmm, olha-me só práquele capa dura a trinta e quatro euros ...

Mmm, olha-me só práquele capa dura a trinta e quatro euros …

Ora, como vende, importa às editoras copiarem a fórmula de autores que conseguiram singrar no palco mundial, naquilo que gosto de chamar “sujeito à portuguesa”. Temos Tolkiens à portuguesa, Asimovs de escabeche e Paolinis de cabidela, porque há uma certa mania, na nossa cultura popular, de tentar imitar os grandes em vez de produzir algo grande que nos seja próprio. Para tal, aposta-se em literatura que, jogando pelo seguro, consiga tocar nos botões certos dos consumidores para que das suas carteiras chova dinheiro.

O nosso bem-amado Zuzarte cai de caras na Eragomania. Como Christopher Paolini, o autor de “Eragon”, era um adolescente que, graças ao marketing pago pelos pais e à editora de vaidade de que os mesmos eram donos, conseguiu publicar uma série de livros muito bem sucedidos pelo planeta fora junto da camada mais jovem, a editora Gailivro, cá em terras lusas, procurou tentar a mesma alquimia. A aura de criança-prodígio com que vestiram Paolini transformou-no, da noite para o dia e no olho do público, no Mozart da literatura fantástica. Tentaram, pois, o mesmo com Zuzarte, e outros ‘jovens talentos’.

Mas então, quem é o jovem João Zuzarte Reis Piedade? Que nos diz a badana da capa?

Gervásio! Traz-me a badana da capa!

“Estuda Teatro, Línguas, Literaturas e História. Passa grande parte do seu tempo a escrever […]”

Desde já, é-nos revelado o prodígio de João Piedade. Estuda duas Artes e duas Ciências Socais, todas elas de complexidade evidente e marcada. Prodígio! Ah, e passa grande parte do seu tempo a escrever. Claramente, este mero rapaz de catorze anos conseguiu pedir ao Ministério da Magia Português um Vira-Tempo. Algo que só um prodígio, lá está, seria capaz de conseguir.

“[…] mas nunca trabalha sem música. Heavy Metal, Rock sinfónico, Power Metal ou Dragonforce marcam o ritmo.”

Caros leitores, isto justificará muito, mas mesmo muito do que se lerá mais para a frente, durante o livro.

“O ginásio e as artes marciais que pratica têm uma missão: quer ser conhecido como um escritor da nova era, jovem e imprevisível.”

Portanto, seguindo essa lógica, eu sou um homem alto, espadaúdo, com cara de Narciso, braços hercúleos, um abdómen tão bem musculado que posso raspar queijo nele e capacidade marcial suficiente para substituir o Chuck Norris nos memes da internet … porque me dedico quase diariamente a ler e escrever?

Querem igual? Sigam uma dieta de Dostoievsky, Nietzsche e Camus, com quatro horas de escrita criativa por dia!

Querem igual? Sigam uma dieta de Dostoievsky, Nietzsche e Camus, com quatro horas de escrita criativa por dia!

Começo a gostar disto!

“Domina a Língua Portuguesa, Inglesa, Alemã, Francesa, Espanhola, Italiana e muito pouco da Dinamarquesa. Fala também a Língua Negra do seu livro.”

Senhoras e senhores do mundo eclesiástico, habemus papam.

Vem cá, Morguel! Senta-te no meu colo!

Vem cá, Morguel! Senta-te no meu colo!

“Deseja lançar muitos livros de forma a incitar o público mais jovem a ler. Mais tarde, escrever, realizar e dirigir o filme do seu livro[sic].”

E contratar um editor para rever a gramática das minhas badanas. Mas pensando melhor, porque não? Frases com sujeito completo são tão passé. E é claro que ele quer realizar e dirigir o seu filme. Eu até gosto de respirar e movimentar o ar para dentro do meu corpo. São duas actividades de plena importância.

– Senhor, se me permite … é uma redundância.

Quê, Gervásio? Uma redundância, tens absoluta certeza?

-Sim, bom senhor, tal como o que disse agorinha mesmo.

Tá bem, tá bem. De qualquer forma, tudo isto estava mesmo na badana do livro, não vos estou a enganar! Isto foi publicado!

E depois, temos a sinopse.

“Cruzando lendas e superstições, Jonathan, um jovem paladino de quinze anos, inadvertidamente,[sic] abre a porta para uma dimensão intemporal e mitológica, entrando no glorioso mundo dos deuses. Recebe de Odin, pai dos deuses nórdicos, a missão de destruir o Mal que se espalha por toda a Europa. Encarnando a figura de Vidar, filho de Odin, Jonathan conduz-nos por locais misteriosos, enevoados, desprovidos de vida ou imensamente povoados de criaturas ameaçadoras, sempre na demanda do Senhor do Mal, o Conde Drácula.”

MENTIRA.

Jonathan não abre porta coisíssima nenhuma. Todo o mundo em que a história se passa nada mais é que um planeta Terra em que todas as mitologias do planeta e lugares-comuns do género fantástico que passou pela mente juvenil do Zuzarte são tornadas reais! Por outras palavras, todo o livro é uma dimensão intemporal e mitológica. Ao contrário do que esta sinopse implica, não há, nem nunca aparenta ter havido, um tempo em que os mitos, neste mundo, não eram absolutamente reais.

Nem na própria sinopse há consistência com a narrativa do livro!

E que dizer da contra-capa? Deuses, a contra-capa? Temos um rol de figuras públicas, obviamente amigalhaços dos pais do rapaz, a elogiar e a encorajar o conteúdo da obra sem, aposto cem euros, sequer terem lido um cheiro que chegue da coisa. Porque o irónico da coisa é que todas as três dedicatórias – do Ruy de Carvalho, do Rui Veloso e do Pedro Granger – estão muito melhor escritas que qualquer parágrafo que o primeiro capítulo tenha para entregar. Excepto o Granger. O Pedro Granger chama este magnum opus da diarreia verbal ‘fabulástico’. Ide bugiar, Pedro Granger.

Que fotografia tiramos nós, no final, desta pessoa? Não é muito difícil chegar à conclusão que a editora tentou, o máximo que pôde, fomentar o culto da personalidade a este pobre, mortalmente arrogante rapaz. Ler esta badana lembrou-me da propaganda que se faz de Kim-Jong-Un na Coreia do Norte, as ilusões messiânicas de um líder que procurou endeusar-se perante o seu povo mediante perfis deste tipo, não tanto o dourar da poia como o platinar do cadáver. E só o vislumbre disto me deixou muito apreensivo quanto à minha sanidade mental após a futua leitura deste livro. Mas vou respirar fundo e preparar o mergulho, porque esta exploração, meus caros, vai ser acidentada.

Deuses, tede piedade.

Deuses, tende piedade.

— José Pedro Castro

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2 comments on “O Zé Lê “O Filho de Odin”, de João Zuzarte Reis Piedade – Primeiras Impressões

  1. Rui Bastos
    Junho 10, 2013

    Hilariante! Faz-me lembrar os livros do André Amaral que li há uns anos…

  2. silvapedro30
    Novembro 4, 2014

    Opá, genial! Onde é que tão sublime blog sobre informação literária útil andou este tempo todo?

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