The Corner Club

Onde se comenta a narrativa enquanto se beberrica chá. AVISO: Segue-se conteúdo sugerido a adultos.

Sobre Shandification

Aposto que a maior parte de vocês está perguntando “que raio andas a fumar, Zé?” depois de ter lido o título. Ou então, “onde está a leitura do primeiro capítulo do livro do Zuzarte, Zé?!” Perguntas pertinentes, meus senhores e minhas senhoras, concedo!  Mas como eu gosto imenso de tangentes e de discutir coisas que nada têm a ver com aquilo a que me proponho fazer (também chamado de procrastinação crónica), decidi fazer isso mesmo e ignorar o post inacabado sobre o meu colega de nascimento.

Ou “prefiro olhar prás nuvens em vez de vestir calças.”

Acordei hoje de manhã para descobrir, no meu feed de Youtube, a seguinte jóia. Atenção, está em inglês.

Para quem não entende Inglês lá muito bem, um breve sumário das ideias aqui presentes:

O autor explora Tristram Shandy, de Laurence Sterne, e a sua estrutura narrativa muito pouco convencional para as convenções não só da sua data de publicação na segunda metade do séc. XVIII mas também da dos dias de hoje. Ao passo que a estrutura convencional de uma narrativa é bastante uniforme e linear, com eventos que seguem uma única sequência lógica – A seguido de B, seguido de C, concluído com D, num arco dramático – Tristram Shandy entrega-se sobremaneira à distracção, deambulação e procrastinação que, obviamente, deixam-me chorando que nem uma fã dos Beatles nos anos 60 a atirar cuecas para o palco. Claramente, Sterne escreveu isto para mim. Assim, A seguido de B, seguido de 1, seguido de W, seguido de P e assim sucessivamente. O desafio está em fazer com que estas deambulações pareçam naturais, o que ocorre quando tratamos de media que nos permitem escapar à sequência lógica de uma narrativa para criarmos, com as nossas deambulações, a nossa própria narrativa. Coisa para a qual os videojogos, e as narrativas que constroem, têm tremendo potencial e para a qual os géneros fantástico e ficção científica estão, com a sua ênfase nos detalhes que compõem a verisimilitude da obra, particularmente qualificados. O autor segue-se a demonstrar como tal coisa se aplica num setting – Fallout – e nos jogos feitos a partir do mesmo – Fallout 3 e Fallout: New Vegas. Sim, toda a tese procura explicar a potencialidade de narrativas não-lineares no contexto de videojogos e como as histórias que criamos podem ser misturadas com o seu contexto interno, mas eu diria que, dados os antecedentes literários propostos, é algo que interessa a todos os que, como eu, gostam de pensar em histórias e como são construídas. Se não se interessam por jogos, há muito sumo para o cérebro neste vídeo, na mesma.

Este tipo de narrativa não-linear parece-me ser bastante promissora. Como escritor, interessa-me a capacidade do leitor de criar, na sua imaginação, a imagem da narrativa global mesmo enquanto vai lendo a narrativa particular a que o escritor se propôs, de ver o que o leitor faz com a plasticina que o autor oferece. Sugere, diria eu, que o acto de ler envolve mais interactividade do que a experiência passiva da leitura, a primeiro trecho, evidencia, e sugere também que o dito “barulho” à volta da história – os pequenos detalhes que não ajudam em nada na progressão da narrativa – pode ser mais importante do que parece, senão um bom motivo de exploração para a narrativa em si. No vídeo, a pergunta que atormenta o autor quando está a deambular no mundo e a conhecer as personagens em Fallout é o que é que eles comem? E a resposta, ou falta dela, faz ou quebra a imersão da experiência, é um buraco na solidez da história, um detalhe que, apesar de parecer pouco importante, é algo em que reparamos quando lá está mesmo quando não o procuramos conscientemente.

São estas pequenas coisas que transformam uma boa narrativa numa excelente narrativa. É o que eleva autores como Tolkien e Martin acima de outros autores dentro do seu género e lhes permite não só selo de qualidade mas de aprovação global, coisa muito rara no mundo da literatura. Aquilo que lemos ou é muito bom ou é muito popular – a conjugação de ambos diz algo da eficácia dessa mesma atenção ao detalhe.

Que acham vocês?

— José Pedro Castro

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2 comments on “Sobre Shandification

  1. antonstark1
    Fevereiro 24, 2013

    Alrighty, portanto… Li tudo e não cheguei a entender muito bem uma coisa: tu consideras que os detalhes de setting são uma tangente à linha narrativa? E que, portanto, Martin e Tolkien deambulam em tangentes?

    Se sim, eu não creio poder concordar muito. Vá, no Tolkien talvez, em retrospectiva, que o homem (já sabes que considero a escrita dele árida) perde-se nalgumas exposições desnecessárias de quando em vez; mas apesar do que possa parecer, em Martin quase tudo o que nos parece deambulação acaba por ser necessário e não apresenta desvios da narrativa em si.

    A dificuldade aqui estaria em definir o que constitui uma tangente, portanto. Care to elaborate on this, please?

    • José Pedro Castro
      Fevereiro 24, 2013

      Não propriamente.

      Como o autor do vídeo explica, hoje em dia a tendência está na concentração de toda a atenção do escritor numa história, com o seu contexto narrativo deixado para segundo plano. Ou seja, na perspectiva moderna da coisa, o contexto narrativo nada mais é que uma tangente; tudo o que não tem influência directa no desenrolar do enredo pouco importa, pois o que importa é a história em si mais do que o pano de fundo.

      Ora, o que o autor do vídeo e eu dizemos é que não é bem assim. Pode-se criar uma boa história segundo essa premissa, claro, mas será uma excelente e cativante história possível sem isso?

      O que Tolkien e Martin fazem é a criação de uma narrativa que depende de um contexto interno próprio para que funcione. A fronteira entre story e setting é completamente eliminada, pois o próprio mundo secundário que ambos os autores criam faz parte da história que pretendem contar. A complexidade da realidade que ambos tecem enquanto vão construindo a sua narrativa permite que o leitor dê asas à sua imaginação e interaja com a narrativa de formas que o autor não planeava de início. É uma das razões, diria eu, pela qual aquilo a que se chama de ‘fanfiction’ é tão popular, especialmente nestes géneros literários que mencionei no post.

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This entry was posted on Fevereiro 24, 2013 by in Uncategorized and tagged , , , , .

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