The Corner Club

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O Zé Lê “O Filho de Odin”, de João Zuzarte Reis Piedade – Capítulo 2

O SALVAMENTO

gram2wy

Diário de Gram, volume XII
26 de Maio, 1836
Traduzido do original Nórdico por um corajoso, inominável escriba

Eu fui uma espada famosa. Fui forjada nos confins dos tempos por Völundr, espetada numa árvore por Odin, de onde apenas um homem, Sigmund, conseguiu me retirar. Fui partida em combate, reforjada por Reginn com arte e feitiço, e tão afiada fui, acabada de sair da forja, que cortei a bigorna de Reginn em duas. Fui fiel a Sigurd, filho de Sigmund, meu dono a partir de então. Chamaram-me de Balmung, Nothung, e escrevi o meu nome em sangue nas páginas da mitologia nórdica. Eu já devia de ter sabido, por ter pertencido a Sigmund, que não era usada pelo mais bondoso dos homens. Agora, centenas de anos volvidos, não posso deixar de concluir que a linhagem de Sigmund só e apenas consiste em sacanas e idiotas sem cérebro.

Porquê, querido diário, porquê esta porra de mau fado? A Excalibur teve o rei Artur em Avalon. À puta calhou um rei de jeito. Porque é que a mim só calhou um palerma que me tentou partir contra uma bigorna? Que fiz eu? Está bem, o nosso pai era um cadinho tresloucado da tola, ali a violar princesas e a fazer taças com os crânios dos irmãos delas, mas eu não sou igual, juro! Mato dragões, corto gente ao meio e cabeças em duas metades! Eu sou boazinha, por favor gosta de mim, diário, mais ninguém gosta. A Excalibur é uma vendida! Eu corto tudo direitinho!

Cá estou eu, olhando para aquele par de palermas enquanto dormem. Não vais acreditar no meu dia. Já não bastava que o pai do fedelho, esse Jonatã da besta que o mate, me desse, a mim!, a um pirralho sem tomates, e o metesse num comboio. Tu sabes que eu detesto estas geringonças modernaças, eu gosto é de cavalos, mas não. Mas agora, tenho de aturar o fedelho.

Tu sabes que ele é o hospedeiro do espírito daquele filho de Odin que ninguém ouviu falar, o tal de Vidar. Pois bem. Já não bastou arrastarem os restos mortais dos antigos heróis da linhagem de Sigmund desde a Escandinávia, aparentemente arrastaram umas estátuas nórdicas para dentro de uma gruta no meio de nenhures em Portugal. O fedelho tocou numa delas, e zás!, lá estou eu em Valhalla outra vez. Uma visita lá é suficiente para deixar qualquer mortal louco. É o suficiente para deixar uma espada louca na bainha. É que os deuses são tão burros. Apetecia-me tanto sentir-lhes as goelas cortadas em fricassé.

Saímos de lá, e eis que o vesgo do Odin ordena ao fedelho que destrua a estátua. Eis senão que o fedelho faz isso mesmo – comigo, nem mais nem menos! – e revela um arco todo jeitoso, feito da Árvore do Mundo especialmente para ele. O grandessíssimo cabrão do traidor! A enganar-me com uma arma de longo alcançe! Toda a gente sabe que os arcos não são de fiar, e nunca são úteis quando a situação aperta! Sempre a se mostrarem, todos abertos, curvas ao léu, para caírem logo no chão, ‘ai credo, ai credo, lá vem um cavaleiro de espada em riste para me cortar ao meio!’. Os arcos são maricas! Nós espadas é que somos armas a sério, não é esses galdeirões.

É por estas e por outras que eu acho que este fedelho gosta mais de pila. Queres saber porquê? Por favor. Ele tem cabelinho frisado branco – branco! – e roupinhas jeitosas. Tem um corpito bem trabalhado e carinha laroca. E depois, o que aconteceu hoje! Mas eu já te conto como deve ser.

Ele soprou num corno que Odin lhe deu (Prova 1!), e lá veio aquele grifo nojento. Aparentemente, ele consegue alcançar a velocidade de um F.16 (o que quer que isso seja) depois de ter comido feijoada. No meu tempo, não tínhamos destas coisas, diário. As coisas faziam sentido, não eram como agora. Vai daí que o grifo começa a voar (aqui confesso que gostei, ao menos o fedelho estava a cavalgar alguma coisa), e eis que o fedelho repara numa rapariga a ser perseguida por um lobisomem lá em baixo, apesar do facto de estarmos a viajar a uma velocidade assim a modos que estonteante. Por isso, ele decide atirar-se do grifo para o chão, porque não? são só mil metros, e aterra mesmo em cheio na cabeça da coitada da criatura.

Porque nada faz sentido, querido diário, o fedelho, em vez de me usar, como qualquer homem a sério faria, decide usar o arco maricas (em forma de asas, que é isto?!) para matar o lobisomem num só tiro. E sou então apresentada à rapariga, uma morenaça podre de boa, daquelas de virar a cabeça a um navegador de dracares e levá-lo a embater o barco contra os rochedos. Que é que o fedelho faz?

Tretas pseudo-machonas.

Isto irrita-me, diário. A rapariga acaba de passar por uma experiência de quase morte, e vem este pirralheco com atitude muito pouco sensível a esse facto, preferindo ser a lesma que é. Desprezo pelas mulheres? Pois é. Prova 2. A pirralheca, mesmo assim, decide montar no grifo com o rapaz, e lá vamos nós pelo ar outra vez.

Foi mesmo muito chato. As coisas só aqueceram quando o grifo acertou numas fagulhas de madeira com raios laser para fazer uma fogueira. Eu não sei o que são raios laser. Também não sei o que é um F.16. Tenho o pressenimento que devia de saber, porque alguém me conta, mas eu não sei. Só sei que o pirralho é um adivinho; a rapariga, japonesa de origem, conta-nos como o seu pai foi morto por forças desconhecidas. E o pirralheco responde ‘A mais mortes Drácula responderá’. Como sabe ele que foi o Drácula? Não sei. Nada faz sentido, diário.

Eis então que vamos para Badajoz, e o rapazola aluga um quarto para a noite, isto após o mesmo ter-se quase transformado em qualquer coisa esquisita em pleno vôo. E é aqui que eu me irrito a sério, diário, porque o que vejo deixa-me embasbacada.

A rapariga decide tirar a roupa, e oferece-se, ali mesmo, sem papas na língua. Só faltava berrar ‘possui-me que nem um lobo esfaimado de sexo, Jonatã! POSSUI-ME!’

E ele decide dizer que não! A uma morenaça podre de boa, com uma beleza física tal que o atordoava! A primeira coisa interessante que podia ter acontecido em toda esta viagem, e o pau do fedelho não sobe! Porra! Porra, porra, porra!

E cá estou eu, diário. Ela acabou de se esgueirar para dentro da cama dele, para se aconchegar toda nua ao corpo dele. Mas que desilusão, não fazes ideia. Dois adolescentes perfeitamente sãos e giros. Eu aqui, prontinha para ver acção a sério, e eles não fazem nada.

Eu juro-te, diário, a vida era muito mais simples naqueles dias, em que o meu pai violava a princesa e fazia dos crânios dos irmãos delas taças para o vinho. Em que homens eram homens a sério, com pêlo nos tomates e pilas do tamanho de bananas. Se uma gaja se oferecia, gajo a tomava! Não havia cá destas mariquices. O Sigmund podia ser um sacana, mas ao menos não era um castrado como este pirralheco.

Olha. Vou sonhar que o estou a esventrar.

— José Pedro Castro

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4 comments on “O Zé Lê “O Filho de Odin”, de João Zuzarte Reis Piedade – Capítulo 2

  1. J. Santos
    Março 11, 2013

    Acho que até o Zuzarte se iria divertir a ler isto…

  2. desupuddi
    Março 11, 2013

    A espada quer ser voyeur e não consegue. Sinto alguma empatia por ela.

  3. André Nuno
    Março 11, 2013

    O que eu me deleito com os teus posts… 😀
    Parabéns pelo brilhantismo. Continua!

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