The Corner Club

Onde se comenta a narrativa enquanto se beberrica chá. AVISO: Segue-se conteúdo sugerido a adultos.

O Zé Lê “O Filho de Odin”, de João Zuzarte Reis Piedade – Capítulo 3

É assustador pensar que este livro foi publicado. Tendo em conta que não deve ter vendido assim tanto, ao menos fico descansado pelo público ter mais juízo do que pensava.

Já vamos três capítulos dentro desta aberração. Custa a acreditar. Noutro contexto qualquer, teria há muito abandonado qualquer pretensão de acabar a leitura de mais que uma página. Quanto mais leio este livro, mais me apetece atirá-lo à cara do Zuzarte, após ter limpo o meu rabo com cada uma das suas duzentas e quarenta páginas. De ambos os lados. Com diarreia induzida por misturas de queijo, alhos e maionese contaminada. Para depois vomitar-lhe na cara.

A cavalgada de mediocridade que este livro representa é desgastante de uma forma que nunca esperei encontrar num livro. Ler isto é o mesmo que travar uma guerra de atrito com a minha sanidade mental. É que chega a um ponto em que, por mais que tente, não consigo achar graça nenhuma a isto. É verdade que me deixa a pensar em muito do que vai mal na construção de uma narrativa ou de uma história, mas será que isso vale o sofrimento? Eu não estou a brincar, é um suplício ler este livro.

Eis o meu criado e motorista Gervásio, pagando promessa a Fátima pelo transplante de fígado. Tenho inveja dele.

Mas chega de queixume. Antes de explorarmos, quais espeleólogos, este capítulo, demoremo-nos por algo que me despertou a atenção no “estilo” que o Zuzarte empregou neste livro e nas técnicas literárias às quais deu uso.

Entre os círculos literários, é muito defendida aquela norma de escrita criativa que postula que um escritor deve, essencialmente, ilustrar algo mais do que narrar algo, aquilo que se chama, no vernáculo inglês, show, don’t tell. Costuma ser, até, daquelas dicas mais replicadas por supostos mestres da arte da palavra quando procuram dar dicas a escritores menos experientes.

Eu nunca gostei muito dessa regra. Mais, acho até que é um monte de disparates.

Eu já consigo ouvir as virgens ofendidas berrarem o seu horror aos Céus, mas dêem-me a oportunidade de me explicar.

Antes de mais, o que se quer dizer por ilustração e narração? Um escritor ilustra quando precisa de pintar, por arte da palavra, a acção que se vai desenrolando na narrativa. Tal coisa pode ser feita de várias maneiras; os diálogos entre as personagens, aquilo que elas fazem ou deixam de fazer, os seus pensamentos, as emoções pendentes na acção, a maneira como se descreve o que se passa. No geral, são ilustrativas aquelas ferramentas que permitem ao leitor experienciar aquilo que lê através do estímulo activo da sua imaginação.

Narração, neste contexto, entende-se como sendo o conjunto de técnicas literárias que permite ao escritor facultar informação directamente ao leitor. São as passagens de texto em que o narrador movimenta a história e as personagens, principalmente através de descrição e exposição.

O que a sugestão show, don’t tell costuma postular  passa, basicamente, pela desvalorização completa do segundo em favor do primeiro – tudo em relação à frase aponta para isso mesmo, está inscrito em todas as instâncias interpretativas da mesma e, como homem de Letras, não posso deixar de me insurgir contra reduções literárias deste tipo. Como cita o artigo da Wikipedia que mostrei anteriormente;

“Needless to say, many great novelists combine “dramatic” showing with long sections of the flat-out authorial narration that is, I guess, what is meant by telling. And the warning against telling leads to a confusion that causes novice writers to think that everything should be acted out … when in fact the responsibility of showing should be assumed by the energetic and specific use of language.”[10]

É, portanto, reducionista dizer-se que tell não tem lugar nas considerações de um autor, e é o que me leva a observar, após cuidado pensamento sobre a matéria, que o problema de autores inexperientes não é o de usarem a narração em detrimento da ilustração, mas o de não acharem um equilíbrio saudável entre a dramatização de certos eventos numa história e a narração do autor. Quando se diz, portanto, que ilustração é difícil de acertar, eu tendo a dizer que escrever é que é difícil de acertar, não apenas certas partes. Um autor verborreico pode ser fantástico a ilustrar, mas porque recorre apenas a ilustração, a história vai tornar-se comprida, arrastada e muito, muito lenta, desgastando o leitor com o atrito constante da emotividade; um autor conciso pode ter técnicas narrativas soberbas, mas se não tiver algo pelo meio para conceder algum tom dramático e envolvente ao que escreve, o leitor vai sentir-se entediado e vai estar menos disponível para ler o que o autor tem para dizer.

Dito tudo isto, onde é que Zuzarte falha?

Em rigorosamente tudo.

Zuzarte falha redondamente em show e falha redondamente em tell. O estilo é esquizofrénico, com narração às cambalhotas pelas páginas. Não há estrutura que seja, é um caos absoluto de ideias e conceitos que aparecem e desaparecem, como se estivéssemos no centro da galáxia enquanto sóis nascem e morrem à nossa volta. Há, sem dúvida, uma história para contar aqui, mas está de tal forma dissonante que exclui o leitor de um processo criativo que mais parece alienígena. É uma salganhada absoluta de ideias de ritmo e passo narrativos retiradas de filmes, séries de TV, videojogos, bandas-desenhadas e livros que, no final do dia, nada mais é que a mais pura expressão do Caos.

O MEU CÉREBRO ESTÁ A COLAPSAR!

Quereis provas? Vamos lá pescar algumas!

YOJIMBO E OS CENTAUROS

Retomamos o rumo da história não com Jonatã o Emasculado, mas com Drácula, onde encontramos a seguinte pérola;

“Os poderes de Drácula não param de aumentar. Mais de metade da população do Império Otomano está sob o seu controlo, incluindo turcos, jugoslavos, macedónios, búlgaros, croatas, bósnios e albaneses. Só os gregos, com a ajuda dos deuses do Olimpo, ainda não se converteram aos seus poderes, pois Zeus protege todos os gregos que o adoram.”

Logo aqui temos um terrível exemplo de narração extremamente mal construída. Para que narração funcione como deve ser, deve obedecer à consistência interna da história, pilar basilar da suspensão da descrença, já para não falar que a informação que o autor nos concede tem de ser completa, ou seja, deve completar a gama de referências necessárias para o entendimento da história. Logo no início deste capítulo, é-nos facultada a informação que os sujos dos muçulmanos e da população nas regiões centrais e orientais da Europa levam com uma achega do Drácula. Porquê? Não se sabe, mas os gregos, esses santinhos, andaram protegidos pelos bons deuses do Olimpo, quando o chefe não anda por aí a violar cisnes. Porque é que as gentes dos países balcânicos não receberam protecção das divindades que adoram? Porque é que só a mitologia grega importa? Porque é que os deuses do Olimpo protegem a Grécia quando a veneração activa dos mesmos caíu em desuso há séculos? Porque é que, neste mundo, ainda se venera os deuses do Olimpo? Porque é que o Zuzarte é tão racista?

Estão a ver o que quero dizer? A acumulação de perguntas arruina completamente qualquer imersão que se queira na história, e o maior problema é que estas inconsistências são ainda mais graves porque ou não são adequadamente respondidas ou não são respondidas de todo. Isto frustra o mais paciente do leitor.

De qualquer forma, o Trio Maravilha do Mal vai pendurando-se no castelo do Drácula, porque não têm batalhas para travar ou talvez chegou a hora do chá de camponês das cinco. Eis então que surge, carregado por nuvens de tempestade, Loki.

“A nuvem acastanhada aproximou-se de Drácula e transformou-se num homem com uma pele de urso vestida, chapéu viking de cornos – […]”

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Chapéu de cornos. Eis as fontes de Zuzarte, senhoras e senhores; a pesquisa que efectuou não foi um tomo de uma faculdade, não. Foi o Asterix.

” […] à volta do pescoço. Era Loki, o deus trapaceiro, que vinha para advertir Drácula a respeito de Jonathan.”

E eis um terrível exemplo de narração em vez de ilustração, porque este é o tipo de informação que normalmente querer-se-ia revelada através de dramatização decente. Sabem o que me mata?

O Zuzarte faz isso mesmo no diálogo que se segue. Na linha imediatamente a seguir!

“- Mestre Loki, bem vindo à Transilvânia.”

Não posso.

Chega a ser insultuoso à nossa inteligência. Não há subtileza, não há capacidade lexical superior ao pretenciosismo mais barato, uma linguagem de estudante de quarto ano misturada com linguagem de estudante de nono bêbado de televisão e consolas, não há um único livro que possa dizer deu origem a isto. Isto é o produto de alguém que nunca leu, nem sabe ler, quanto mais escrever. Mas vamos lá ver o resto do descalabro que é esta história.

Todo este diálogo entre Loki e o Trio Maravilha do Mal é tão mau que chega a ser penoso. Loki revela-nos que quer ver Vidar e, por conseguinte, Jonatã, bem morto. Perante as perguntas de Drácula, Loki revela-nos ainda que a única maneira de um deus ser morto é na sua forma de humano ou de animal.

Que queres dizer com isso, Zuzarte? Isso não é informação muito perigosa de se dar a um tipo que dedicou o seu reinado a dominar tudo e todos os que aparecem à sua frente? Todos os deuses são Pokémons ao serviço de mortais? Queres dizer que todos têm vidas mortais paralelas? O que acontece quando um deus masculino é associado a uma gaja? Problemas de identidade sexual? E se estiverem atraídos? Conta como masturbação?

De qualquer forma, depois desta revelação, regojizam os malfeitores, que planeiam a morte do nosso herói, rindo daquela maneira mesmo …

E passamos para o nosso herói, tendo um pesadelo em que borra-se todo perante o Drácula, tentando uma de Freddy Krueger. Acorda ouvindo Iori cantando; em vez de Zuzarte dramatizar a coisa um bocadinho, simplesmente diz “mas a cantoria não o incomodou”.

ENTÃO PORQUE RAIO MENCIONAS ISSO? PORQUÊ DIZER QUE NÃO O INCOMODOU? QUE DESPERDÍCIO DE PALAVRAS É ESTE?!

Eis então que se põe à janela a pensar. Quando a Iori sai do banho para entrar no quarto, eis que surpreende Jonatã novamente com o seu escultural corpo feminino. Que faz Jonatã?

Fica quieto.

Que diz ela?

“- O que foi? Nunca viste uma rapariga nua? – insinuou a rapariga.
– Assim tão nua não.
– Achas que perdi peso? Não sou do teu agrado? – questionava ela, enquanto olhava para o seu corpo.
– Não, o teu corpo é perfeito, o problema é esse – Jonathan pegou na sua capa e entregou-a a Iori.  – Olha, tapa-te com isto, está bem? Vamos fazer umas compras.”

DE QUE ESTÁS À ESPERA?! VAI COMÊ-LA! TU QUERES, NÃO TENS NENHUM ADULTO A TE CAGAR O JUÍZO, ÉS UM ADOLESCENTE COM AS HORMONAS AOS SALTOS. FAZ O QUE O TEU CORPO DIZ, RAIOS TE PARTAM.

Ao menos temos um bocado de caracterização para a Iori. Ela gosta de andar desnuda porque se sente à vontade assim. Está bem, nada contra. Continua fazendo isso.

Mas como não posso ter nem uma coisa boa para desfrutar nesta leitura e como Jonatã não tem tomates, decidem ir às compras. Jonatã já tem Gram, mas aparentemente precisa de uma espada nova para compensar pela que não tem entre as pernas.

Temos alguma (muito pouca) descrição de Badajoz. Aparentemente, é um sítio onde humanos, elfos, gnomos, anões e outras raças saídas de World of Warcraft andam pelas ruas em perfeita harmonia social. Toda a gente é amigável, os anões cheiram mal, gostam de machados e usam ceroulas esburacadas. É isto. Pensei que não era possível tornar tal coisa aborrecida. Afinal, estava errado.

De qualquer forma, somos apresentados a um misterioso estranho fazendo peditório à porta da Zara Armas Medievais E Roupas De Senhora, a primeira personagem marginalmente original com quem nos deparamos. Tem cabelo frisado de côr não especificada, usa roupagem japonesa toda preta, com uma camisola interior amarela e uma bandana toda vermelhinha e jeitosa. De alguma forma, sabe-se lá como, o dono da loja conta a Jonatã que o tipo é um “mercenário do clã ninja da região de Iga, um clã de assassinos implacáveis e sem piedade. Também disse que aquele rapaz podia ser tão perigoso ou mais que um ninja adulto, tal foi a sua educação em artes marciais”. Como raio é que o velhote sabe? Vá-se lá saber porquê. Não podia ser a japonesa a contar-nos – tinha de ser um velho elfo espanhol, dono de uma sucursal da Zara que vende bikinis de cota de malha.

De qualquer maneira, compra Jonatã uma armadura de mithril toda janota com uma autêntica fortuna (se há máquinas de slides, também deve haver cartões multibanco no mundo fantástico de Jonatã), e uma fatiota janota e sexy para a Iori. Ao sair, depara-se com o equivalente de Badajoz das Festas de São Firmino, e lá vem uma debandada de centauros para estragar o dia à perfeitamente pacata, perfeitamente estável, perfeitamente entediante cidade. Porque os problemas, no mundo de Jonatã, resolvem-se à espadeirada, salta ele para o meio da turba para começar a cortar centauros aos bocadinhos. Eu não resumi isto; eu estou a usar mais palavras para descrever o que aconteceu do que Zuzarte dedicou à batalha.

Mata Jonatã, então, uns quantos de centauros e vai ficando cansado, até que vem o tal ninja salvar-lhe a vida, atirando um shuriken que deixa o coitado do centauro esguichando sangue por todos os lados, apesar do facto de que um shuriken mal tem capacidade para ferir, quanto mais matar. Salta então o ninja para a batalha, brandindo a sua catana que brilha com luz vermelha. Eis o que acontece;

“Matou cerca de oitenta. Todos eles levaram cortes fatais no tronco mas, em vez de caírem, ficaram imóveis. Quando acabou com a vida do octogésimo centauro, voltou a embainhar a catana, primeiro muito lentamente e depois de uma só vez. Assim que o cabo da lâmina tocou na bainha, todos os centauros morreram de uma só vez.
Jonathan nem acreditava no que estava a acontecer ao fundo da rua.”

Pois. Eu também não. O tipo passa de ‘cerca de oitenta’ para exactamente ‘o octagésimo’, usa ‘uma só vez’ mais que uma vez, mais uma vez faz narração horrenda misturada com ilustração vomitada, e tudo isto enquanto copiava, e muito mal, uma cena absurda qualquer retirada de um anime exagerado.

Eis o estilo de Zuzarte! Pináculo do disparate!

Porque, neste mundo, mede-se o tamanho das nossas pilas usando a contagem de seres que matámos como escala, Jonatã e o misterioso estranho começam a comparar as suas metálicas erecções. Aparentemente, o ninja tem andado à procura de Jonatã, nunca pensando que esse colosso de herói que ninguém supostamente conheçe poderia ser um rapaz. Jonatã responde com uma abébia que nem faria corar uma virgem de sessenta anos frequentadora de missas semanais. Que faz o ninja, que supostamente correu meio planeta à sua procura? Decide desafiá-lo para um duelo até à morte.

WTF IS THIS SHIT
E não é que lutam mesmo? Apesar da katana do ninja lhe dizer que Jonatã não é um dos maus da fita?

“É estranho que, no teu caso, ela [a katana] permaneça normal.”

Eu acho é estranho que ainda não tenha tido uma quebra absoluta de cognição. Não é, bisavó? Não era suposto estares morta? Porque me estás a espetar a língua? E porque é que me acabas de levantar as saias?

E eles lutam, avozinha, lutam forte e feio, com pessoas a voar três metros com um pontapé, e ninjas a defenderem-se de setas de gelo com lâminas de katanas, e ninjas arrastando as espadas pelo chão, porque é óbvio que devemos maltratar uma lâmina a esse ponto, e ninjas supostamente muito experientes a correrem em cheio de encontro a um punho levantado. E depois, porque é protagonista, Jonatã ganha, e vence, e é o rei da festa, e todo magnânimo, poupa a vida ao psicopata do assassino, depois pedindo-lhe que se junte a ele.

O que é que acontece?

“Kenchi Yojimbo, às tuas ordens.”

Está mais que provado que Zuzarte não leu uma linha que seja de um livro decente antes de decidir dedicar-se a esta epopeia pelo caos literário. Está mais que provado que Zuzarte não tem consciência do que é efectivamente escrever algo minimamente de jeito. Está mais que provado que estou a enlouquecer.

–José Pedro Castro

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4 comments on “O Zé Lê “O Filho de Odin”, de João Zuzarte Reis Piedade – Capítulo 3

  1. desupuddi
    Março 19, 2013

    Estou com a cabeça a rodar. Então neste livro o mito de Drácula é real, assim como os deuses do Olimpo, e os deuses nórdicos. E como se isto não bastasse, ele põe um ninja à mistura? <.<

    Acho que não lia isto por motivo algum neste mundo.

    Ri-me imenso com a cena em que ele se recusa, novamente, a comer a pita. Então não é que isto contesta a tua teoria de que o Autor não lê?
    Pois é; na série Twilight há uma cena igual.

    • José Pedro Castro
      Março 21, 2013

      O problema nem é esse, o problema é não haver justificação ou worldbuilding para que se consiga digerir os disparates.

    • kerhex
      Março 23, 2013

      Isto é anterior a Twilight. Dizem que Twilight é baseado nisto… xP

  2. João Ricardo
    Maio 22, 2016

    E esse Kenshi é uma cópia do Kenshi do Mortal Kombat.

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