The Corner Club

Onde se comenta a narrativa enquanto se beberrica chá. AVISO: Segue-se conteúdo sugerido a adultos.

O Zé Lê “O Filho de Odin”, de João Zuzarte Reis Piedade – Capítulo 4

Eu sei, pessoal, eu sei, este demorou a sair. Foi custoso de acabar por um rol de razões, desde a vidinha normal à simples e frustrada falta de coisas para dizer, mas a primeira chama-se The Wise Man’s Fear, de Patrick Rothfuss. Consumiu toda a minha atenção e, por mais que tente, não consigo baixar o livro tempo suficiente para fazer algo decente.

– Ora vamos lá ver então … o ensaio de mil palavras está acabadito, agora toca a desancar o Zuzarte, mas primeiro, deixa-me ler um capítulo aqui do Rothfuss …

E dez horas mais tarde, estou a levantar a cabeça e a dizer “Ups!” pró ecrã.

Problem?

Mas vamos lá meter as mãos à obra, que temos muito território a cobrir.

Quando me penduro à frente de uma prateleira de ficção especulativa numa qualquer livraria e vejo os olhares passageiros que os transeuntes dão a mim e à mesma, fico sempre com aquela sensação de ter sido apanhado a fazer algo vergonhoso e anormal, como se tivesse sido apanhado a fazer as necessidades com a porta da casa de banho aberta. Francamente, não posso censurá-los. Como posso eu fazê-lo, quando temos um mar de bosta flutuando nessas mesmas prateleiras? Mesmo assim, ponho-me a pensar, braços cruzados, sobrolho franzido, ruminando o pensamento. As pessoas passam a infância a ver desenhos animados, a ler contos-de-fadas, a ouvir histórias de bruxas que amaldiçoam pessoas no cruzamento ou que saem dos bosques às 5 da tarde (a minha avó tem uma imaginação daquelas). Porque é que, então, as pessoas olham para ficção especulativa como se fosse algo do qual se deve fugir como o Diabo da cruz?

FUJAM, É O ERAGON!

FUJAM, É O ASIMOV! E O TOLKIEN VEM MESMO ATRÁS! CARALHO, É O JOÃO BARREIROS, E VEM NU!

É verdade que fantasia e ficção científica estão mais em voga do que alguma vez estiveram, mas existe um certo preconceito que permanece, apesar dos avanços. Séries de TV têm investido em ficção científica e fantasia, e ser geek nunca foi tão chic. O que tem travado mais esses avanços é, a meu ver, o dilúvio de idiotas que pensam que sabem escrever em qualquer um dos géneros, quando tratam-se de dois dos géneros para os quais é mais difícil escrever.

– Ó Zé – perguntam vocês, os vossos olhares brilhando de fanática e indubitável admiração pela minha pessoa – porque é que é difícil escrever para esses géneros?

Oh meus caros, o problema não é bem serem difíceis de escrever, qualquer mamã cougar com um sonho molhado pode escrever sobre um vampiro que a fornica a bom fornicar para depois chamar-lhe Twilight. O problema é que é monstruosamente difícil escrever boa fantasia e ficção científica. Porquê? Por causa de duas coisas, essencialmente; as particularidades dos temas que tratam como géneros e aquilo a que um certo poeta chamado Coleridge chamou de suspensão da descrença.

Quando lemos uma qualquer história de ficção, há um número de considerações que o leitor deve ter em conta para que desfrute em pleno de uma obra. São coisas que se aprende enquanto se apanha aquelas secas valentes nas aulas de Português – o que é o tempo, o lugar, o modo, a acção, o narrador, a personagem e por aí em diante, numa narrativa. Aquelas peças que fazem o motor funcionar. Onde é que a história tem lugar? Em que horas, dia, mês, ano? De que forma é a história contada? A história é sobre quem? O que acontece?

Ora, todas elas dependem daquilo a que gosto de chamar de base de referência comum, ou, mais pomposamente, o limite de apreensão conceptual geral. Tenho a certeza que há um termo técnico mais específico para a coisa, mas estou-me nas tintas para encontrá-lo. Basicamente explicada, a base de referência comum nada mais é que todo o cardápio de conceitos, percepções, preconceitos, conclusões, premissas, etc. que compõem a nossa visão da realidade, da maneira como as coisas efectivamente funcionam.

A maioria dos outros géneros literários que hoje conhecemos não brincam demasiado, em regra, com esta base de referência por uma razão muito simples. Quando as coisas se desviam demasiado daquilo a que nos acostumamos como sendo a realidade, a sensação de estranheza pode chegar a tal nível que qualquer tentativa de decifrar aquilo a que o autor se propõe perde-se no meio da confusão de perguntas, divagações e observações que fazemos. Perdemo-nos naquilo a que se chama o uncanny valley da literatura.

Tal não é o objectivo da ficção científica e da fantasia. O propósito geral destas correntes literárias prende-se pelo distanciamento de uma realidade que nos é familiar, catapultando-nos para situações, lugares, tempos, personagens e ambientes parcial ou completamente diferentes e estranhos à nossa regular percepção. Na ficção científica, o propósito é a especulação sobre onde o avanço da humanidade em direcção ao futuro nos poderá levar. Na fantasia, o propósito é a especulação sobre realidades que, apesar de (preferencialmente) reconhecíveis e verosímeis, nos são estranhas, porque partem de premissas, conceitos ou até mesmo mundos que não são passíveis de compreensão usando as bases de referência que utilizamos quotidianamente. Daí chamar-se ao ramo mais abstracto de ficção onde estes géneros se inserem de ficção especulativa.

Quando efectivamente funciona (leia-se, quando bem escrita), ocorre o estado a que se chama de suspensão da descrença, um estado em que, absorvidos pela nova realidade, suspendemos a nossa base de referência normal para assumirmos outra, através da qual podemos entender, apreciar e relacionar-mo-nos com aquilo que nela se passa. Em termos mais poéticos, é o estado em que acreditamos, na fecundidade da nossa imaginação, que aquele mundo, aqueles conceitos, aquelas personagens, aquelas situações, são total e perfeitamente possíveis e verosímeis no contexto dessa nova, imaginada, realidade. Porque depende fortemente na consistência interna dessa mesma realidade, da mesma forma que dependemos fortemente na lógica do contexto da nossa própria realidade, qualquer quebra de consistência, qualquer palavra inadequada, qualquer expressão mal utilizada, qualquer falha de caracterização de uma personagem, por pequena que seja, pode levar a quebras de lógica. Por outras palavras, no preciso momento em que algo ocorre sem que haja alguma justificação para isso, a suspensão deixa de existir, a descrença cai em peso, a magia, ou melhor, a arte que tornou isto possível desvanece.

Dito isto, começa-se a esboçar um retrato das razões para que o típico livro de ficção especulativa seja um calhamaço de entre 500 a 1000 páginas. Grande parte da normal ficção que se escreve não depende sobremaneira do estabelecimento minuncioso dos detalhes do nosso dia-a-dia que não consideramos importantes, porque os tomamos como garantidos. Assim não o é com ficção especulativa; porque a narrativa neste género depende mais integralmente da maneira como a ambiência (vulgo setting no vernáculo anglófono) é definida e moldada pelo autor, torna-se necessário investir no esclarecimento dos conceitos basilares da nova ambiência, da nova base de referência com a qual julgaremos esta nova realidade, para que o leitor não se perca no tal uncanny valley e atire o livro pró lixo porque não percebe nada, pá.

A dificuldade da escrita neste género prende-se, pois então, pela capacidade do autor em traçar realidades parcial ou completamente novas para o leitor sem que o leitor perca noção da sua suspensão da descrença.

– Mas Zé … onde anda o Zuzarte, no meio disto tudo?

Muito simples, leitores; o Zuzarte é o perfeito exemplo de como cagar forte e feio na suspensão da descrença numa cavalgada de absurdismo mais estridente que o mais abstraccionista dos quadros.

Faz mais sentido que o Capítulo 4.

TOLEDO E BOËURN SETERWIND

Começemos então a dar uma olhadela pelo desastre.

Como sempre, Zuzarte apresenta-nos com o exemplo da sua magna incompetência logo no primeiro parágrafo.

“A uns quantos quilómetros de Badajoz, os centauros ainda fugiam pelas planícies até que chegaram a um acampamento onde pernoitava Vhan, o Cavaleiro da Morte.”

Nem há dois dias atrás estava o Bom do trio do Bom, Mau e Feio a tomar chá de camponês no castelo do Drácula, lá longe na Roménia. Como caralho veio ele aqui parar? Não nos dás nada, Zuzarte? Nenhum grifo que voa à velocidade de um F.16, nenhum peido mágico com capacidade teletransportadora? É só os bons que têm aqueles métodos de transporte super-rápidos?

E porque é que ele está montado logo a seguir (num Pesadelo, chamado de Equus Necron Maleficarum, este tipo é tão mau a dar nomes em latim)? Que razão poderá ele ter para estar montado num acampamento? Ele não estava a pernoitar? Mas que confusão é esta?

Logo no primeiro parágrafo, a suspensão da descrença está esfrangalhada, mas a minha fúria já foi desbaratada há uns capítulos atrás. Eu li este capítulo no aeroporto, antes de voltar para casa para umas férias de Páscoa. Surprendi-me por uma única razão.

Porque parti-me a rir.

Este capítulo é hilariante.

Pois então, após o seu ataque falhado, os centauros lá vêm, humilhados após a indiscriminada chaçina que um par de fedelhos lhes infligiu. Segue-se uma cena saída de um desenho animado, em que Vhan fica todo irritadinho por não terem conseguido matar Jonatã. Por isso, e porque essa é a melhor coisa que se pode fazer para atrair mais mercenários à nossa causa, recusa o pagamento aos centauros e ordena aos seus arqueiros que os transformem em almofadas para alfinetes.

Eu fico sempre triste quando se procede à aniquilação de criaturas mitológicas, especialmente o senso comum.

Mas aqui é que as coisas começam a ficar muito, muito engraçadas, porque voltamos a encontrar-nos com o nosso grupo de heróis e Iori, porque as gajas não contam e vão ver mais provas disso daqui a pouco. Agora nos arredores de Badajoz, preparam-se para viajar em direcção a Toledo. Kenchi recusa-se a montar Arthos, o grifo, porque tem transporte próprio, como todos os pseudo-badass têm.

Resumo? Oh, não. Deleitem-se.

– O vento sopra de leste. Aparece, Daigoro! – depois pegou numa espécie de flauta e tocou uma nota.

Como se se tratasse de uma resposta, uma rajada de vento soprou com força e partículas verdes começaram a juntar-se até formarem um tigre com dentes de sabre, pele [?!] verde às riscas e olhos azuis. O pêlo [aah!] do animal formava uma espécie de chama esverdeada.

– Que prodígio!! – observou Jonathan.[…]

– ELE FALA!!! O TIGRE FALA!!! – gritou Jonathan, espantado.

– Claro, se um mortal consegue, achas que um animal sagrado não conseguirá, Jonathan Strongheart?

-Ele … ele sabe o meu nome! – murmurou o rapaz, cada vez mais nervoso.

– Claro que sim, meu jovem! – respondeu o animal, com um tom de voz de quem já tem muita idade. – Eu sou Daigoro, o tigre guardião do clã de ninjas Yojimbo.

Arthos aproximou-se de Daigoro e começou a olhar para ele.- Olha lá, meu velho, tens ar de ser muito rápido.

– Afirmativo, meu jovem; se eu quiser posso correr a 800 km por segundo ou até à velocidade do som e da luz.

– Ai é?! Então fazemos assim, meu velho senhor: realizamos uma corrida daqui até Toledo; e quem chegar primeiro, ganha.

E lá vão eles! A viagem dura apenas “minutos”.

Eu não sou lá grande matemático. Eu sou até um péssimo matemático. No entanto, bastou uma rápida pesquisa no Google para descobrir que Badajoz está a 275.89 km de Toledo em linha recta. Se Arthos e Daigoro conseguem alcançar e superar 800 kilómetros por segundo, uma velocidade bem superior à do som (se não estou em erro), então … chegariam ambos a Toledo em … o quê? milésimos de segundo?

E isto carregando passageiros precariamente montados.

Eu nem me vou incomodar com uma piadola. Fiquem lá com isto. Nada que diga supera isto.

A hilaridade continua à medida que a história avança. Desmontam perante os portões de Toledo, que aparentemente têm duas estátuas do tamanho de elefantes, representando guerreiros hoplitas gregos e portas de madeira de carvalho “muito difíceis de destruir.”

Isto é 1862, não é?

Tentem lá parar esta beleza.

De qualquer maneira, o grupo decide recriar aquele sketch que tanto adoramos dos Monty Python:

Eu esperei que o françês aparecesse para os insultar até irem embora, mas infelizmente, os escravos hobbits (sim, hobbits) lá deram à manivela e abriram os portões.

Jonathan, Iori e Kenchi entraram em Toledo, a cidade das espadas e armaduras, toda construída de pedras e tijolos; ou seja, os passeios eram feitos de pedra e as casas de tijolo.


Impossível resistir. Eu ria a bandeiras despregadas no aeroporto. Levei esgares estranhos dos seguranças, mas valeu a pena.

E é só isto de descrição sobre Toledo. Vamos directos à mansão de Boëurn Seterwind, aparentemente o único membro da família da mãe que faz alguma coisa de jeito. O mordomo da casa aparentemente tem Alzheimer, porque não se recorda de Jonatã, até que, num rasgo de lucidez, lembra-se que Jonatã derrotou Uther em esgrima de florete aos dez anos.

Lolwut

A vossa suspensão da descrença ainda está de pé? A minha está a ser internada no hospital devido a ataques de riso incontroláveis.

Boeürn, na sua aparência, é muito semelhante a Uther, apenas o cabelo deste é preto e a sua amadura é amarela. [megasic]

Eu sei, a gramática nisto é pontapeada de forma absolutamente grotesca, mas prestem muita atenção à descrição. Boëurn Seterwind é tio de Jonatã. Irmão da sua mãe. A mãe casou-se com alguém incrivelmente parecido ao seu irmão. Eu não preciso de esclarecer as implicações disto, pois não?

Eu sei! Basta juntar as peças e de repente O Filho de Odin torna-se numa sombra do Song of Ice and Fire!

As boas-vindas do seu tio são calorosas, e tal, e é então que a cena mais espantosamente má que até agora vi neste livro me destrói.

Momentos mais tarde, uma rapariga de cabelo ruivo, orelhas de elfo e com uma cara quase tão bonita como a de Iori, desceu as escadas, viu Jonathan, correu na sua direcção, e saltou-lhe para as costas, apertando-lhe o pescoço sem se aperceber.

-Jonathan, voltaste!!! – gritava ela, contente.

-Gasp … não … conseguir … respirar … morrer … COF … – e Jonathan caiu no chão semiasfixiado.

Iori, ao ver o que aconteceu, gritou tão alto que até o vidro de uma janela rachou.

Depois, correu na direcção da rapariga e disse:

– MALDITA SEJAS, MATASTE O MEU NAMORADO!

Neste instante a rapariga desembainhava a ua espada, apontando-a ao pescoço da outra. Kenchi e os mordomos, ao verem isto, correram na direcção de Iori, para impedir o ataque.

– MALDITA SEJAS, MATASTE O JONATHAN – gritava Iori, enfurecida.

CAT FIGHT! CAT FIGHT! CAT FIGHT! CAT FIGHT!

Mas acaba não acontecendo. A rapariga é Mace, filha de Boeürn e prima de Jonatã, e a sua melhor técnica de primeiros-socorros é um balde de água com gelo pela cara abaixo. Brincando, Jonatã diz que Mace é a sua namorada, e ai credo cruzes, o propósito da vida de Iori murchou no sítio, ela caiu de joelhos, mil tromboses rebentando-lhe pelo cérebro fora enquanto toda a razão para a sua existência implode perante os seus olhos, e tudo isto enquanto Kenchi graceja sobre a ampla perfeição dos peitos de Mace.

Como vai essa suspensão da descrença? A minha já está suspensa. No quarto do hospital. Pelos lençóis da maca à volta do pescoço.

A coitada da vagina ambulante lá se acalma e pára de excretar flúidos. Tem Jonatã uma pintura toda janota no quarto, aparentemente.

Porque Zuzarte precisa de afagar o seu possante pénis enquanto demonstra a sua capacidade passageira de mencionar um quadro meio obscuro.

E vai daí que se prepara para o banquete formal que terá lugar mais tarde.

Aquilo ainda nem começou, e já tenho medo do que vai acontecer.

— José Pedro Castro

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One comment on “O Zé Lê “O Filho de Odin”, de João Zuzarte Reis Piedade – Capítulo 4

  1. ingrooving
    Março 29, 2013

    O Zuzarte é realmente um caso raro na literatura. Partindo do pressuposto que aquilo que ele faz é literatura, claro está.
    É um autor que transmite sensações ao leitor de uma forma pouco usual: quando tenta ser divertido, colocando uma ou outra piadola, acaba sempre por ser deprimente, mas por outro lado, quando escreve um parágrafo sério de batalhas e diálogos épicos, Zuzarte busca a sua veia mais humorística e presenteia o leitor com gargalhadas onde não deveria haver mais do que sofrimento, pela leitura claro.

    Boa sorte para os seguintes capítulos e parabéns pela coragem de ler isto em público.

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