The Corner Club

Onde se comenta a narrativa enquanto se beberrica chá. AVISO: Segue-se conteúdo sugerido a adultos.

O Zé Lê “O Filho de Odin”, de João Zuzarte Reis Piedade – Capítulo 6

Jesus Cristo Abernúncia, que nem sei por onde começar.

Dizem os grandes que um livro diz mais acerca de um autor que muitas biografias, e os meus bem estimados leitores saberão, porque são claramente inteligentes e cultos, que o público-alvo de qualquer texto deve ser tido em próxima consideração pelo autor e por quem publica. É evidente; não queremos pôr a rapaziada de 9 anos a ler Cinquenta Sombras de Grey, ou pôr adolescentes de 15 anos a ler Os Maias, não queremos traumatizar ninguém, mesmo que os programas do Ensino Secundário assim o obriguem.

Mas de vez em quando, ocorre um rasgo de estupenda burrice, infectando todos os níveis da produção literária, um alinhamento das merdosas estrelas ou potências divinas para que os nossos olhos sejam brindados pela mais pura parolice cliché e preguiçosa. Um pouco como estes dois parágrafos iniciais.

Falo, claro está, do Terry Brooks. Credo, Terry Brooks, que és péssimo.

… ah esperem. Review errada. Ou será?

Vamos lá começar  isto de novo.

technical
Ora bem.

Eu já me enfiei por estes pequenos prólogos dentro com os mais variados temas, mas nunca cheguei a falar de um que me chama a atenção, quando leio este capítulo. Violência, racismo e sexismo nos media.

Quando se tenta criticar algum aspecto que achamos vai mal no nosso quotidiano, costumamos atribuir culpas a quem ou o que nos parece ser responsável, e quando vemos algum senhor bem vestido na televisão ou escrevendo todo catita num jornal a criticar este livro ou aquele filme por serem anormais, declaram-se assustadíssimos com o estado dos valores. Ai, a crise dos valores!, esta juventude que só quer mamas e sangue e goelas! Cabeças rolando, pessoas enforcadas nos seus próprios indestinos grossos, eia, super baril, puto!

É normal; não gostamos de coisas que não compreendemos, e a reacção normal ao que não conhecemos é o medo, coisa aliás natural quando pensamos que estamos prestes a levar com um soco nas ventas. No entanto, eu fico sempre com uma pulga atrás da orelha quando chega alguém ao telejornal da noite para dizer que os videojogos, os livros, a música metal ou o Demo du jour que o parta são os grandes males que corrompem a nossa juventude. Há uma certa tendência entre as gerações mais velhas em culpar tudo de novo que lhes aparece à frente como sendo a prova do constante falhanço da humanidade enquanto esquecem-se dos falhanços da humanidade que a geração anterior a eles lhes andou a criticar. A educação da juventude é sempre um tema gordo, peludo e complexo, mais ou menos como a minha pessoa. É um tema que deve ser discutido racionalmente e sem reduções ou generalizações.

Excepto os adolescentes. São idiotas arrogantes  sem um pingo de consciência literária, e a culpa é de um sistema de ensino mais podre que o queijo emmental de um ano que tenho no fundo da gaveta do meu frigorífico. De pais que mal têm tempo para fazer as necessidades com alguma paz. De muito pobres escolhas de vida feitas sem grande juízo. Pirralhos, pá.

Dito isto, sempre houve um certo elemento de engrandecimento e de escapismo associados à literatura fantástica. Corpos masculinos esculturais, mulheres deslumbrantes com tudo no sítio, vestidas em biquinis de cota de malha muito pouco confortáveis, misoginia bacoca, comparação de erecções metálicas, maneiras de falar que não se entende, fantasias bem esquisitas para o leigo. Os clichés embaraçosos do género são suficientes para confinar quem gosta do mesmo à eremitagem, sob pena de ser apedrejado em praça pública. Mas são o nosso legado, para bem ou para mal; há razões para que procuremos estas figuras idealizadas na nossa ficção. É um fenómeno que não afecta só a ficção especulativa. De outra maneira, não teríamos Cinquenta Sombras de Grey. E a razão para a existência dos mesmos vale a pena ser pensada, até porque há maneiras muito mais sábias de se pensar ideais sem que recorramos a clichés batidos, infantis e medíocres, sem que enchamos os nossos ecrãs de sangue, morte e chacina, sem que procuremos reforçar modelos sociais não só antiquados como moralmente repreensíveis, como a rapariga indefesa que nunca poderá fazer o que quer que seja por si mesma, ou o rapaz que só é validado socialmente se tiver uma pseudo-pila maior que a dos outros, ou o estereótipo barato de povos, crenças e culturas diferentes da nossa.

Há coisas que valem mais a pena para adolescentes lerem, verem e jogarem que não a violência de manhã e chacina à noite. Porque se comer mousse durante uma semana inteira, só vou ter diarreia. O princípio é o mesmo. Nem tanto ao mar, nem tanto à serra. Infelizmente, passamos a adolescência nadando num mar de dejecto fecal líquido, lá deixado por quem nos precedeu, e com merda a todos os quadrantes da bússola, torna-se difícil escapar à formatação.

O Zuzarte pensa nisto? No público-alvo, que supostamente é infanto-juvenil e precisa de alguma variedade? Na natureza da sua prosa? Nos temas possíveis com o material que se propõe a trabalhar?

Aaaahahahahahahhahahahahaa não.

Eis que chegámos ao capítulo em que mais se demonstra o quanto isso é verdade. Este capítulo é  o pior desastre literário que já li em Português. Já li fanfiction em Português que, comparada com isto, foi escrita por Fernando Pessoa numa trip de ópio. Este capítulo borbulha com a fétida estupidez de alguém que não está lá muito interessado em mais do que ver recriadas as suas loucuras. Este capítulo tresanda a adolescente idiota arrogante, fedendo de hormonas, pejado de calinadas, chafurdando na mediocridade que nem um porco com Parkinson, pujante na magnitude da sua merdalhada. Ele não nada no dito oceano de material fecal líquido; qual James Cameron, ele vasculha as profundezas do Mar da Poia. Depois deste capítulo, apetece-me dar de comer o livro inteiro, página a página com molho extraído da minha vesícula biliar, a um Zuzarte atado a uma cadeira.

O Filho de Odin, até agora, nada mais se revela senão como sendo wish fulfillment no seu pior. O retrato de um adolescente muito, muito mal criado, sem capacidade mental para pensar em algo mais que a insignificância dos seus desejos pessoais, que os inflige ao leitor sem um pingo de misericórdia.

Não tens piedade, Piedade.

Bem.

O ATAQUE DOS DRAGÕES A MADRID

Este capítulo. Deuses, divindades e ídolos vários da mitologia humana, ajudem-me, este capítulo. Vocês não têm noção. Mas eu vou tentar passar a ideia.

Os nossos jovens aventureiros chegam a Madrid pouco depois de terem deixado Toledo, porque qualquer pessoa que olhe para um mapa percebe que Toledo e Madrid são bastante próximas. Demoram minutos, apesar dos seus métodos de transporte serem capazes de quebrarem o limite da velocidade da luz. Entram na cidade – que o nosso caro Zuzarte não descreve – e regala-nos com esta preciosidade.

“Mace assistia, fascinada, a todo aquele movimento; depois olhou para um homem com cabeça de cão.
– Oh! primo, olha! – disse ela apontando. – Um homem com cabeça de cão.”

Narra algo primeiro … e ilustra-o logo a seguir. Decide-te, Zuzarte!

“- É um cinocéfalo (Cynocephalus indica).
– Um “quê”?
-Um cinocéfalo, um comerciante da Índia. De todos os comerciantes que há no mundo, a maioria e os melhores são os cinocéfalos.”

O leitor incauto pode pensar que isto é um comentário particularmente incisivo sobre a natureza do comércio dominado pelos bancos de hoje em dia. Não, não. Zuzarte insulta uma classe profissional inteira ao fazer com que a maioria, e os melhores, tenham todos cabeça de cão. E que são da Índia.

Já não bastava que fosse insultuoso, tinha de ser racista também; agora de maneira mais aberta, em vez da xenofobia meio disfarçada dos capítulos anteriores. Intencional? Não acho. Se é intencional, só merece o meu mais merecido desprezo. Se não, merece apenas o meu esgar de firme desaprovação.

Ora toma, minha besta.

Isto é péssimo, por amor da Santa! Reprovável! E Zuzarte devia de ter vergonha disto.

Passado o momento absolutamente nojento, eis que nos encontramos perante a fonte de Cíbele, e decidem ir tomar o pequeno-almoço a um restaurante ali perto.

” – Primo, come qualquer coisa! – disse Mace, estendendo-lhe um pouco de presunto.
– Não, obrigado, prima; para mim comer presunto é tão agradável como mastigar uma meia suada!”

HEREGE! QUEIMEM-NO EM AUTO! ESFOLEM-NO VIVO!

Mas este momento de paz não dura, oh não, porque qual maldição proferida por Moisés, Jonatã é como que uma praga, atraindo desastres onde quer que vá. Desta feita, é um bando de Dragões Negros, saidinhos do Monster Manual de Dungeons and Dragons. Cospem ácido e tudo.

“Jonathan  viu as pessoas em pânico gritarem e morrerem com a “chuva” de ácido.
– Iori, Mace, vão para dentro. Kenchi e Te’Chall, tomem conta delas – ordenou.”

Mais uma vez, as vaginas ambulantes são confinadas à sua insignificância, reduzidas nem sequer ao papel de donzelas em perigo, mas sim de criadas à espera do mestre, de prémios para o fim da batalha. Não só isso, as outras duas cabeças de abóbora obedecem, paus mandados que são. O que me deixa com espuma na boca é que são quatro jovens com óbvias capacidades para ajudar na luta, E NÃO LUTAM.

Uma cidade inteira sob ataque de criaturas gigantescas, e Jonatã ordena-os que não ajudem as pessoas em clara necessidade. Narcisista filho da mãe.

São todos reféns de um sociopata sexista com complexos de superioridade mais altos que o Evereste, que não deixa que mortes em massa afectem a sua valorosa cabeçinha.  O comum dos mortais estaria em pânico. O menos comum dos mortais estaria horrorizado. Mas Jonatã está-se nas tintas para as pessoas que morrem banhadas em ácido. É mais que óbvio que Zuzarte não compreende o conceito de morte, decência ou liderança, e que merece uma chapada de cada habitante deste planeta.

“No mesmo instante em que os quatro cumpriam a ordem, Jonathan viu uma mulher com um bébé de colo a fugir de um dragão. A infeliz tropeçou, o bébé rebolou no chão e começou a chorar; um dragão mergulhava na direcção dela, e Jonathan nem pensou duas vezes: pegou num barril e correu na direcção da mulher e do réptil alado. Assim que estava a uma distância considerável [?!], atirou o barril com toda a força para o focinho do dragão. Este, com o choque, foi obrigado a desviar a rota, indo contra uma casa, destruindo-a.”

Nem vou dizer nada. Tomem lá a pérola.

Jonatã mata o dito dragão a tiro, antes de se esquivar de outro para saltar umas dezenas de metros, de forma a montar Arthos, que chama com a sua trompa, tudo isto descrito em mais Português atroz. Arthos alcança os 10.000 metros de altitude; posto isto, que faz Jonatã?

Atira-se dali pra baixo, claro!

Mergulha a pique, disparando “inúmeras setas” para baixo, porque a cidade lá em baixo está obviamente completamente vazia de gente passível de morrer. O dragão persegue-os.

“[…] o dragão ganhou terreno e estava quase a engoli-los quando Jonathan desembainhou a espada, saltou para a cabeça do animal e enterrou-lhe a arma no crânio. O dragão gritou de dor e o sangue jorrou para as mãos de Jonathan, queimando-as, pois o sangue de um Dragão Negro tem o mesmo efeito corrosivo que o seu bafo.”

LOLOLOL LITERATURA INFANTIL

Enfim, FINALMENTE, após 91 páginas de super-batalhas, Jonatã é ferido!

“Ficou com as mãos completamente queimadas e o seu corpo contorcia-se com dores. Mas as queimaduras desapareceram em segundos e as mãos ficaram novamente bem, prontas a agarrar fosse o que fosse.”

Oh vai-te foder, Zuzarte.

Jonatã deambula pela praça principal, dirigindo-se a um estranho vestido de negro. O tipo tira o capuz, e revela-se como sendo Graz’zt, o senhor dos Dragões Negros da Península Ibérica.

Graz’zt. Ora, eu não sou um novato no reino dos RPGs pen and paper. Porque Zuzarte não tem um osso de originalidade no corpo, decide roubar o nome a um dos mais icónicos príncipes dos demónios de Dungeons and Dragons para enfiar nesta sua pobre tentativa de personagem. Como se já não estivesse fulo que chegue.

Graz’zt revela que está à procura de um tal de Jonatã, daí ter atacado a cidade inteira de Madrid, o que até é inteligente, porque tipos heróicos como Jonatã caem que nem patinhos nessa. Poupa imenso tempo na procura, por mais que seja perigoso para os Recursos Humanos e Dracónicos.

“Quando verificou que o rapaz que estava à sua frente possuía todas estas características [corpito Men’s Health, cabelito branco frizado e por aí em diante], desembainhou a espada e atacou-o. Este defendeu-se com Glam [sic], que tinha o dobro do tamanho da de Graz’zt.”

Sim, leram bem. A insegurança de Zuzarte é tal que a extensão penil que Jonatã usa para chacinar tudo o que lhe apareça à frente tem de ser maior que a dos outros!

O combate é demorado, diz o autor, e passa meia página a ilustrar o contrário, provando que nem consistência interna consegue manter. Jonatã vence, claro; na sua derrota, Graz’zt prepara-se para levantar vôo e partir em paz.

“- Isso é o que tu julgas, Graz’zt – respondeu Jonathan, que com um salto e um golpe de espada cortou o atacante ao meio pelo tronco até ao ombro.”

LOLOLOL LITERATURA INFANTIL

A sério, Jonatã? O tipo rendeu-se, preparou-se para fugir, claramente decidido a não matar-te, e tu decides matá-lo na mesma?

Ok. Permite-me que te diga umas coisas.

  1. ELE PERDEU.
  2. Porque não prendê-lo e interrogá-lo sobre Drácula?
  3. ELE ESTAVA A IR-SE EMBORA. NÃO IA MAGOAR MAIS NINGUÉM.

É este o herói saudado por toda a Europa? Um pirralho sem-vergonha que mata tudo o que lhe aparece à frente em vez de tentar uma conversa como deve ser? Que se preocupa mais com a sua imagem e com o seu heroísmo do que com o seu conteúdo moral? Um sacana de primeira ordem que rebaixa raparigas ao papel de bonecas masturbatórias de insuflar, impede os amigos de ajudarem uma população em perigo e está-se nas tintas para a aniquilação completa de raças mitológicas inteiras desde que tal sirva os seus fins, usando a guerra e o facto de serem “malvados” como desculpa?

É este o herói que enalteces, Zuzarte?

Envergonhas-nos a todos.

Mas este nem é o cúmulo. Oh não, não é o cúmulo. Os dragões partem, derrotados. Jonatã olha à sua volta e vê uma cidade em cacos. Senta-se à beira da fonte e fecha os olhos.

“Passados alguns instantes, uma luz vinda do céu iluminou Madrid, os edifícios reconstruíram-se e as pessoas regressaram à vida. O rapaz olhou para cima, levantou-se e virou-se para a fonte. No meio das nuvens, viu a figura de um homem a olhar para ele.
Este homem vestia uma túnica branca, tinha a barba ligada ao cabelo e um aspecto muito belo. Era Deus, pai de todos os Homens na Terra, e de Jesus Cristo, que se sacrificou por nós.
– Jonathan – chamou Deus.
Não acredito nos meus olhos, devo estar doido – disse o jovem, boquiaberto.
-Jonathan, meu filho.
-Filho? Eu sou filho de Deus? Então Jesus é meu irmão? – perguntou ele, confuso.
– É uma forma de expressão, caraças, eu sou Deus, pá, e sou obrigado a falar assim, julgas que eu gosto de falar desta maneira?”

Sim, Deus.

“[…]Ora bem, vi que tu salvaste aqui os espanholitos, e por isso vou dar-te um pequeno presente.”

Eu nem sei o que dizer. Espanholitos.

A prenda é uma nova espada.

“- Chamo-lhe Vingadora, muito adequado, não achas? Foi o meu amigo Arcanjo Gabriel que a forjou com o fogo dos pecadores, a lâmina é de prata pura, inquebrável, mais afiada do que um x-acto e nunca se gasta.”

Mais afiada que um x-acto.

Eu não consigo mais. Por favor, eu não aguento mais!

Deus vai-se embora com Gram, que sem dúvida está agradecida a Deus pelo milagre de ser afastada deste sacana, a população de Madrid sai à rua para saudar Jonathan como seu herói, rei incluído, e Arthos refere-se á população como espanholitos.

Sim, espanholitos é usado mais uma vez.

Este capítulo desafia a minha capacidade de exprimir a minha fúria. É isto que querem fazer passar como literatura infantil? É isto que queremos ensinar aos nossos jovens, que é perfeitamente salutar chacinar tudo o que nos aparece à frente e tratar toda a gente como se fossem trapos? Que só devemos nos importar com a nossa imagem, porque só os actos heróicos do herói devem contar, qualquer que seja o custo? Que a xenofobia e o racismo casuais não só são normais como irrepreensíveis? Que é razoável que livros destes, com este capítulo, sejam publicados?

Eu gosto de uma boa power fantasy de vez em quando, como qualquer gajo. Mas isto ultrapassa todos os limites do razoável. Começo seriamente a não querer continuar com este aborto literário e a não dignar mais do meu precioso tempo e sono a dissecar esta merda.

Hades te leve, Zuzarte. Hades te leve para os poços do Tártaro.

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4 comments on “O Zé Lê “O Filho de Odin”, de João Zuzarte Reis Piedade – Capítulo 6

  1. Inês Montenegro
    Maio 7, 2013

    O caraças que páras com isto. Pensa no reconfortante que é fazeres “O Zé lê” depois da tortura da leitura. A possibilidade de destilar tudo o que ficou entalado.
    Enquanto isso, eu vou continuar a rebolar no chão de riso com as falas de Deus. Acho que temos o suficiente para que eu mesma o excomungue. Ou exorcize. Or something.

  2. Ana Ferreira
    Maio 8, 2013

    A tua tortura é a nossa felicidade! \o/

  3. José Santos
    Maio 9, 2013

    É ridículo que tamanha asneirada tenha sido publicada como um livro. Realmente dói só de ler. Discordo apenas na visão do Zé que retrata um herói ideal e espera mulheres guerreiras a todo custo. Não creio que tenha sido o autor a rotular a “obra” como literatura infantil, e penso que nem só os heróis bonzinhos tem direito a ter as suas histórias contadas. Estaria perfeitamente confortável com uma personagem que nega ajuda a estranhos quando tem outras prioridades, e com um papel feminino mais realista para a época do que as guerreiras em armadura biquini que se imagina em todo lado.

    • José Pedro Castro
      Maio 11, 2013

      O problema, segundo o que apreendo do livro e do tom que o mesmo pretende, o herói é suposto ser o bom da fita. Jonatã não é retratado de forma alguma como um anti-herói – se assim o fosse, a sua falta absoluta de consideração pela segurança dos habitantes de Madrid e pelas capacidades dos seus companheiros não seriam dignas de nota.

      De resto, concordo, não há problema em termos retratos fiéis à época na história, ou em qualquer história. As questões relacionadas com o poder ou a falta do mesmo das mulheres são importante bagagem cultural e social que valem a pena serem retratadas por si mesmas. Os problemas surgem quando são o único retrato que temos do género feminino – há um sem-fim de vaginas ambulantes em fantasia, e é uma tendência que deve ser contrariada, não porque retratar uma vagina ambulante é mau, mas porque é um retrato redutor da riqueza de personalidade inerente não só ao género feminino mas à nossa espécie.

      Dêem-me gajas que não sejam capazes de lutar se quiserem. Dêem-me gajas que esmaguem tomates só com um esgar se assim o entenderem. Dêem-me gajas com tanta pele à mostra que me deixe a questionar a definição de “roupa” ou gajas tímidas que vistam roupa do pescoço aos pés. Mas por favor, dêem-me mulheres a sério, que eu estou farto de gajas só porque gajas.

      De mencionar também o anacronismo que se nota em todo o livro. A máquina de slides em Valhalla, Deus a mencionar x-actos, gente a lutar à espadeirada numa altura em que se combatia essencialmente ao mosquete. Lobisomens, vampiros, Gary Stus. Será assim tão difícil introduzir uma figura feminina menos tradicional para a época, especialmente tendo a noção que até a nossa própria História é caracterizada por algum anacronismo?

      Quanto ao comentário sobre o autor não ter escolhido a etiqueta específica, pode muito bem ser que assim seja, mas parece-me óbvio, ao ler o livro e ao ler a badana, que o mesmo é destinado a camadas mais jovens, porque é essa a missão que Zuzarte se propõe. Através do exercício físico e da sua mestria das artes marciais, planeia estimular a juventude a ler. Daí parecer-me ser justo julgar o livro segundo as convenções daquilo que se quereria para essa faixa etária. Um ponto apenas, que gostaria de frizar; eu não tenho rigorosamente nada contra heróis enfiando espadas pela cabeça de um dragão dentro, não sou parvo ao ponto de dizer que a juventude é incapaz de distinguir facto de ficção. No entanto, é um pouco preocupante constatarmos que, pelo menos em fantasia deste género, é mais normal matar-se alguma criatura inteligente do que tentar diplomacia. Mensagem essa que me parece particularmente nociva para qualquer idade.

      – Zé

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