The Corner Club

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O Zé Lê “Downspiral – Prelúdio” de Anton Stark – Parte 1

Vamos a uma pequena mudança de ritmo, senhoras e senhores, que depois daquele capítulo do Zuzarte preciso de uma pausa pequenina.

Um breve prelúdio ao Prelúdio; quem já leu o livro mencionado no título deste artigo saberá que os capítulos não são numerados, coisa que, por muito que me apraz, não é conveniente para esquematizar artigos. No entanto, como eu até sei que os leitores disto podem ser contados por uma mão cheia um número de vezes razoável, parece-me ser algo que deve ser tido em conta. Assim sendo, um esclarecimento; cada “parte” irá conter um, dois, talvez até mesmo três capítulos. Como de costume, vou fornecer o nome de cada capítulo à medida que os vou tratando. Hoje, tratarei apenas de um capítulo, que se revela como tendo muita coisa que se diga.

Entendido? Entendido.

Vamos lá a isto, então.

Downspiral – Prelúdio. Durante semanas, ficou descansando no meu ambiente de trabalho, sem que lhe desse uma olhadela que fosse. Claro, pensava os temas e o que tinha visto até então, no meio da minha procrastinação crónica, mas aquela falta de algo, que mencionei nas primeiras impressões deste livro, não me dava grandes razões para virar a página. Eu sou um bocado impressionista na minha leitura e na minha crítica – recolho as minhas impressões primeiro, faço as minhas conclusões e depois tento explicá-las em retrocesso. A minha opinião do livro até agora resume-se no seguinte;

Downspiral – Prelúdio é o seu nome.

Yep. É isso.

Que quero eu dizer com isto? Ora bem. O que normalmente se quer de um título é uma soma resumida do(s) tema(s) que se quer ver desenvolvido(s) no mesmo. Que nos diga algo do que esperar, uma achega, um gostinho do que se esconde lá dentro. Memorial do Convento! E Tudo o Vento Levou! Orgulho e Preconceito! Crime e Castigo! Títulos fortes, sonantes, que ficam na memória, que intrigam.

Downspiral – Prelúdio não intriga. É um anglicismo que não se sabe o que está ali a fazer. Não diz nada, não nos espicaça, e é um prelúdio. Prelúdio de quê? E porquê Downspiral? A impressão que me dá é a do prefácio a um manual de uma máquina de lavar.

Super-excitante.

O título não é apelativo e não parece colar de forma alguma à história. Não diz nada que consigamos descortinar. Basicamente, o título falha a própria obra ao não fazer o que devia fazer. Está lá, simplesmente, um pouco como o resumo da contracapa. E o mesmo, lamentavelmente, pode ser dito sobre o que acontece nos primeiros capítulos. Assim sendo, tenho de me forçar um bocadinho a ler, o que, justiça seja feita, pode ser fruto da minha exasperante falta de capacidade de concentração.  A ver vamos se a coisa se mantém ao longo do caminho.

O que nos leva ao

PRÓLOGO

O prólogo do Prelúdio. Estás a gozar com a nossa cara, Stark.

Enfim.

“Conhecimento é poder”, ouvira desde pequeno. Nas entranhas pétreas de Amorslea procurava a chave para ambos.

Ok, começa bem que chegue. Eu gostei deste primeiro parágrafozito. Todo o bom primeiro capítulo começa com um bom primeiro parágrafo. Esta é uma pequena achega sobre as motivações da personagem prestes a ser introduzida.

Mas antes de mais, é-nos ilustrado o cenário da acção, e desde logo o autor demarca-se pela descrição competente e, atrevo-me a dizer, empolgante.

“A água que lhe dava pelos tornozelos reflectia o tecto aboba-dado sustido por uma floresta de pilares esverdeados pelo tempo e pela humidade. As cisternas ecoavam com os seus passos, botas de couro negro arrastando o líquido como um lençol. Lançou o charuto que tinha nos dedos para dentro da água, onde se apagou com um silvo.
“Junto à cabeça tombada.” Restos de grandes estátuas há muito caídas tinham sido aproveitadas para construir pedestais para as colunas que sustentavam as cisternas, vastas e monumentais como catedrais, e a cidade de Amorslea acima delas. Blocos com asas esculpidas, dorsos de animais, figuras humanas às quais a água polira as feiçoes até delas só formas vagas e arestas suaves restarem; mas apenas uma cabeça imensa no meio de todas elas, a face sorridente de uma mulher com cabelos verdes de limo, deitada sobre o seu lado direito chorando lágrimas que o povo da capital iria um dia beber. Encostou-se às feições delapidadas, aguardando. Nas tochas presas ao topo dos pilares o fogo crepitava e mantinha-lhe companhia.”

Antigas ruínas, o esqueleto de uma civilização precedente sobre as quais ergue-se o corpo de uma outra, nova, cidade. Tudo isto descrito de forma a ilustrar uma ideia de um passado distante, abandonado, sem reverência ou admiração, o retrato de uma civilização em cego progresso.

Eu gosto disto. Eu gosto imenso disto. Porque é que não podes ser assim, Zuzarte? Porquê?

Meia página dentro, e é como se a minha testa estivesse a ser suavemente massajada por raparigas meio descascadas enquanto outras duas belas mulheres cantam o dueto das flores. Isto é literatura pura comparado com o lixo que me tenho forçado a comer.

Mas continuando. Um bocado de exposição e worldbuilding segue-se, com a personagem ainda inominável a fornecer-nos uma achega da política do reino de … Amorslea, acho eu?  Presumo, porque não está lá no texto. De qualquer forma, a personagem, a quem decidi chamar de Bob na ausência de apresentações, diz-nos que Amorslea está em guerra. O seu rei, sendo um sacaninha de primeira ordem, decidiu que queria fazer boa figura para os livros de História do seu reino, para isso pedindo que se começe à pancada com o vizinho do lado. Os embaixadores gunnländer (cujo país não é pronunciado, por alguma razão esquisita) são aprisionados e executados em segredo, alguns documentos falsos são preparados, e a nossa personagem começa uma guerra para o seu rei. Agora, o rei aparenta estar à procura de “lendas”, para assegurar que a guerra toma bom rumo, daí a presença de Bob nas ruínas de Amorslea. E eu fico-me a perguntar quem é este senhor, porque é que não nos foi apresentado ainda e porque é que a informação nos é dada desta forma. Eu fico querendo ver os embaixadores a sofrerem esse acidente em vez disto. É que me parece que teria sido melhor se isto tudo tivesse sido dito durante um diálogo qualquer, o capítulo parece um bocado desastrado aqui. Ou que esta situação dos embaixadores fosse ilustrada, acho que dava uma melhor introdução tanto à trama como ao conceito, com um pouco de intriga política à mistura. Mas isto serve que chegue o propósito, apesar de ainda ter alguns buracos.

Enfim. Bob espera por alguém. Esse alguém em breve revela-se.

— O meu senhor chega cedo — A voz aguda reverberou por entre as colunas.

Voltou-se para trás, espreitando por entre as sombras rarefeitas. Os olhos que lhe corresponderam afundavam-se numa cara magra como o resto do corpo, coberta por pele branca e pastosa como cera. O homem ocultava a sua figura debaixo de um casaco puído e nojento, em tempos porventura verde, e caminhava curvado como se a espinha tivesse sofrido um acidente desagradável. As suas feições cadavéricas não eram melhoradas quando o sorriso se lhe abria para revelar duas fileiras de dentes amarelados e alguns podres.

Esta pobre criatura chama-se Zedock, e é revelada como sendo um contrabandista. Bob trata-o abaixo de cão, exigindo saber se conseguiu encontrar o que pediu. Zedock diz que sim, levando o nosso empinado nobre ao seu covil.

O covil de Zedock ocupava uma antiga câmara numa plataforma elevada, feita para escapar às subidas e descidas das reservas de água. O chão de pedra estava pejado de restos de papel e pergaminho, poças de substâncias indizíveis que um ralo entupido de papel não escoara, farrapos de tecido tingidos num tom agourento e familiar de castanho e outros artefactos indistintos mas vagamente desagradáveis na luminosidade inadequada, criada por um punhado de velas e um lampiõo que dava à luz sombras entre aquela decadência. A sala era sustida por um par de pilares trabalhados com olhos-de-pavão, por entre os quais uma prateleira se partira em tempos, despejando os seus conteúdos pelo chão. Conseguia captar um odor a podridão fresca, emanando talvez de comida esmagada debaixo de alguma pilha de manuscritos ou livros.

Outra muito boa descrição, se me permitem que o diga. Parece ser o ponto forte do Stark! Pinta muito bem a imagem de que este tipo vive no caos e na imundície, e começa-se a ver as pinceladas gerais do estilo que o Stark aplica.

Segue-se uma conversa. Zedock revela que descobriu o paradeiro de um artefacto qualquer, que obviamente Bob está à procura. É-nos revelado entretanto que Bob usa farda, e sustenta uma alta posição governamental como “providenciador de informação”.

— É informação que sustenta a posição que tenho neste reino, como sabes. Como providenciador dessa informação, és-me precioso… até certo ponto. Os teus contactos no submundo permitem-te descobrir o que eu não consigo nesta matéria — O homem permaneceu calado como um rato. — Agora, antes que a minha paciência chegue a um termo desagradável, mostra-me o que tens para mim.

Urgh, isto é frustrante. Quem és tu, Bob? Diz-me, porque é que eu tenho de me importar com o que está a acontecer? Porque é que me metes nojo? Não me motivas a ler, Bob, não és de todo interessante.

E voilá, qualquer esperança que tinha em estabelecer ligação com a personagem perdeu-se, e fico ali como que um fantasma. A suspensão da descrença mantém-se, mas só porque, pessoalmente, worldbuilding e descrições mantêm-me imerso que chegue na experiência. Bob é mais seco que um pastel. Há qualquer coisa, mesmo assim, que me está a fugir no estilo do Stark …

De qualquer forma, Zedock dá a Bob um livro, escrito num dialecto que Bob não consegue ler. Bob faz uso desse facto para impor-se um pouco ao contrabandista, manipulando-o a esforçar-se por agradar, apontando para um mapa no livro. Este prova a Bob, vá-se lá saber como, que o artefacto afinal é verdadeiro. Uh, Bob, amigo, colega, companheiro? Não é melhor arranjares mais fontes que esta antes de dizeres que um artefacto perdido existe baseado numa única página de um único livro?

Eles estão a telefonar. Querem contratar-te para editor.

Eles telefonaram. Querem contratar-te para editor.

Mas isso são pintelhos, como diz o meu amigo de jantares, o Catroga. O Stark dá-nos mais alguns nomes assim ao calhas. Tor Sancre, o Rei Kalen, a Cruz de Hlal, um Cyphreu, Cyriae, Miranai. Demasiados nomes novos para os leitores incautos, segundo a minha opinião, sem grandes, ou melhor nenhumas, explicações ao que são, como que partindo do princípio que o leitor já sabe o que são. Coisas destas são a manteiga no pão que é o género fantástico, acreditem, eu sei bem disso, mas Tolkien (eu sei, se chupo essa pila muito mais ela vai acabar arrancada) raramente nos atira com nomes complicados sem oferecer um contexto e uma explicação para a sua existência, e o mesmo se passa com outros grandes do género. É a essência de bom worldbuilding. Quando os nomes já têm boa explicação de antemão, aí torna-se perfeitamente permissível atirá-los sem mais nada, porque já fazem parte da base de referência do leitor. O Stark não faz isso, o que obriga a um esforço de confiança na capacidade do autor de nos clarificar mais à frente. E esse esforço é custoso, é um buraco na coerência narrativa. Se a coisa acumula buracos que cheguem, deixamos de vê-la.

Mas eu fui um bocadinho injusto com a piada lá em cima. Bob concede que precisa de investigar a coisa um bocado mais antes de acreditar em pleno que a coisa existe (que coisa é, vou ser enrabado antes de o saber). Se porventura existe, mudará os destinos da guerra e o futuro dos Extremos do Norte. Por agora, está disponível à noção da sua existência. Bob decide continuar a assustar o coitado do Zedock.

— Muito bem. Algo mais? Isto por si só não me satisfaz — mentiu. A testa de Zedock podia iluminar a divisão com o brilho da perspiraçao.

— Tudo o que tenho entreguei-lhe, meu senhor. Os meus recursos estão esgotados. Por favor.

Teve que dizer algo antes de ver Zedock a rastejar no chão por clemência.

— Suponho que tenha de chegar — suspirou.

— Tende cuidado, meu senhor — avisou o contrabandista, recuperando fôlego. — Se o artefacto existe, o seu guardião também.

— Não vou atentar a advertências de alguém como tu — disse, mais para colocar o homem na linha que para lhe negar a verdade que permeava as suas palavras.

— Eu cumpri a minha parte, meu senhor — exclamou  com um assomo de alegria doentia. — Agora a vossa.

— Fizeste um bom trabalho, pela primeira vez. Aqui tens a tua recompensa — Retirou um livro de debaixo da capa ao levantar-se, um tomo largo encadernado a couro escuro e maltratado. Deixou o volume cair sem cerimónias na mesa, diante dos olhos gulosos de Zedock.

— Este nosso negócio, considera-o concluído. Por ora, nunca ouviste falar de mim, nem eu de ti. Compreendido?

— Certamente, meu senhor — disse Zedock, distraído, afagando a capa do livro como se da maior jóia nos Reinos se tratasse.

És um sacana, Bob. Espero bem que morras. Coitado do Zedock, só quer ler um pouco de Cinquenta Sombras de Grey em paz! Ele todo contente com a tua cópia em segunda mão, e tu todo sacana com uma obra de arte de valor inestimável recentemente recuperada.

Bob vai-se embora, ruminando as descobertas. Diz-nos que o artefacto é o Sopro (sim, sim, eu já fui buscar a vaselina), e que tem algo a ver com “vida nas máquinas”, o que tem tons vagamente gepettianos que me começam a agradar. Ok! Começa a ficar interessante, Stark! Bob quer o Sopro só para si, afinal de contas; quer impedir que mais alguém o possua, e para isso vai enviar um certo Maitland, que aposto é um assassino qualquer, portanto podemos depreender que Bob, afinal de contas, é o vilão.

Não estava sozinho quando voltou a passar pela efígie da mulher sorridente. Um casaco longo, negro e dourado, caído sobre os ombros de um corpete, cobria a silhueta esguia de uma Alquimista Arcana. Um pendente de cristal azul pulsava-lhe sobre o pescoço, entre as pontas de cabelos azulados.

— Senhor — A mulher saudou-o com um aceno de cabeça.

— É definitivamente o renegado que procurávamos, Perill — disse-lhe. — É perigoso e insano, e está armado. Toma todas as precauções com ele.

— Quais as suas ordens?

— Elimina-o — comandou, arrumando os documentos e o tomo debaixo da capa.

A única pessoa por quem nutria alguma simpatia, e decides matá-la. Vai-te foder, Bob.

E TEMOS MAGIA!

MAGIA!

… espera lá. Acho que é a foto errada.

FWOOSH!

Eu adoro magia.

Quero mais magia.

Mas Perill mata o Zedock com uma bola de fogo, e eu fico triste, e quero ler mais.

Ok, Stark, deixaste-me intrigado quanto baste. Toca a continuar a leitura.

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One comment on “O Zé Lê “Downspiral – Prelúdio” de Anton Stark – Parte 1

  1. Maggie
    Outubro 14, 2015

    Dois anos e meio depois…
    O livro é bom?… Estás a gostar? Não vale a pena? Perdeste-o?
    Fiquei na expectativa de ouvir mais…

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This entry was posted on Maio 17, 2013 by in O Zé Lê and tagged , , , , , .

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