The Corner Club

Onde se comenta a narrativa enquanto se beberrica chá. AVISO: Segue-se conteúdo sugerido a adultos.

O Zé Lê “O Filho de Odin”, de João Zuzarte Reis Piedade – Capítulo 9

Comedy TragedyO FILHO DE ODIN DRAMATIZADO

O RIVAL DE JONATHAN

PERSONAGENS

JONATÃ, o protagonista. Doutorado em Ciências do Chá pela Universidade da Pardieira do Leste, com um pós-doutorado em Técnicas de Espadeirada Meio Parva e Constantes Referências a Artes Marciais. É um meio-deus/lobisomem sagrado/Messias/gajo giro de cabelos brancos e olhos azuis deliciosos. É arrogante, rico, snobe, ganancioso, possui tudo aquilo de que de mais repugnante pode existir numa pessoa [1]. IORI quer comê-lo. À bruta.

IORI, a vagina ambulante. Agora com dentes. Nham nham.

BROK “Martelo de Batalha” OLAFSON, moçoilo todo musculado. A paixoneta secreta de .

RYUJI SHINTARO, o japonês menos japonês de sempre. Quer ser namorado de IORI, vá-se lá saber porquê. É arrogante, rico, snobe, ganancioso, possui tudo aquilo de que de mais repugnante pode existir numa pessoa [1]. IORI detesta-o.

ZEUS, pai dos deuses, fornicador de gansos, enrabador de bois. A pessoa mais sã nesta história.

, o autor desta dramatização. A pessoa menos sã nesta história.

FIGURANTES

Tudo o resto. São capazes de fala, mas não são importantes, por isso que se lixem.

 

CENA I

O cenário é um vasto prado mediterrânico, na fronteira da Grécia. A mais variada flora apropriada para o local encontra-se, pujante de vida, no lado direito do palco. O lado esquerdo encontra-se enegrecido pelos gases malditos expelidos por Drácula. O que é que o tipo está a fazer exactamente para corromper a terra? Não se sabe.

O grupo – TE’CHALL, IORI, MACE, KENCHI e BROK, bem como o jardim zoomitológico que usam como método de transporte –  encontra-se reunido em torno de JONATÃ, que segura um mapa. Sozinho, observa o que se vai passando a uns passos de distância, com cara de quem nutre nada mais, nada menos que puro ódio por toda a gente. Excepto BROK.

JONATÃ – Portanto, em dois dias, passámos a Riviera Françesa, o norte de Itália e agora nos aproximamos da Grécia.

– Se estes animais cósmicos conseguem viajar a mais de 800 km/h, certo? Porque é que ainda não chegámos?

JONATÃ – Acho que estou a sangrar do nariz.

revira os olhos, rosnando de fúria mal-contida.

– Porque puseste-te a pensar, seu escarro mental. Que mal fiz eu à humanidade para ter de voltar a ver as vossas caras? Porque porra nada disto faz sentido? Porque é que sou forçado a vos seguir para onde quer que vão?

BROK – Vides comigo no meu cavalo, caro Zé, que não ides mal acompanhado. Mas pelos peitos de Freya, porque me apertásteis os abdominais daquela forma enquanto cavalgávamos?

– Satisfazendo as aspirações impossíveis da minha badocha pessoa, Brok, não lhe dês muito caso.

BROK, achando aquilo tudo um bocado estranho, decide olhar de volta para o mapa.

– A minha insaciável curiosidade pela forma masculina ideal aparte, que raio estamos nós a fazer aqui?

JONATà – Hein?

O grupo inteiro fica a olhar para a cara de parvo de ZÉ.

– Parece-me bastante forçado termos de passar pela Grécia. Porque motivo temos de ir lá? Que vamos nós lá fazer? Não, eu estou a falar a sério. Se o nosso objectivo é enfiar as nossas metafóricas representações de erecção metálica pela goela do Drácula abaixo, que raio estamos nós a fazer na Grécia quando podíamos estar na Transilvânia em menos de três segundos graças à super-velocidade dos vossos animais cósmicos?

Toda a gente fica a olhar para com cara de parvo.

– É que eu começo a pensar que —

ARTHOS larga uma vergastada com a asa na nuca de. Este desmaia que nem uma florzinha cortada. O protagonista limpa a hemorragia nasal.

JONATÃ – Ufa, já estava farto de ver as minhas capacidades mentais desafiadas. Bora lá, pessoal! Para a Grécia! O nosso autor sabe perfeitamente o que está a fazer!

BROK agarra em , monta o seu fiel corcel e ajusta o pobre coitado à sua frente, com todo o cuidado. Partem para Atenas. Fim de cena.

CENA II

Viajaram mais algumas horas até chegarem a Atenas, importante cidade com um templo, o Pártenon, dedicado aos deuses do Olimpo. Jonathan e Te’Chall aterraram e Kenchi e Brok pararam em frente da cidade, Te’Chall assumiu a forma humana e Daigoro, Äeröd e Arthos desmaterializaram-se.

Entraram na cidade, as ruas estavam animadas e cheias de gente, comerciantes e artesãos vendiam os seus produtos, entre eles os famosos vasos e jarrões gregos. Mace e Kenchi ficaram a apreciar a arte da cerâmica grega, enquanto Brok e Te’Chall foram a uma loja de magia e alquimia, deixando Jonathan e Iori sozinhos.

simplesmente fica a olhar, completamente atónito, enquanto mais uma capital europeia é enrabada sem pingo de misericórdia pela total incompetência de Zuzarte. Começa a ver a sua AVÓ a ser sodomizada por marinheiros espanhóis enquanto chove bacalhau do céu. Outra vez.

– Estou pirando da mona.

AVÓ – Nem tu fazes ideia!

– E olha para isto!

Jonathan passou por um comerciante com um vaso que mostrava um hoplita de armadura negra a apontar a sua lança ao pescoço de um outro hoplita de joelhos. Havia uma legenda encostada ao vaso que dizia: “Aquiles a matar Pentesileia”, 540 a.C.

AVÓ – Ai, filho, mas o que é isto? Que está uma peça de museu a fazer na rua?

– EU SEI, ISTO ESTÁ A DAR COMIGO EM DOIDO!

AVÓ acena sagazmente enquanto um marinheiro a pega de empurrão.

O elenco ocupa-se com compras variadas. MACE e KENCHI ocupam-se com os vasos, mais inertes e calados que pedras tumulares. BROK e TE’CHALL visitam a loja de alquimia, o primeiro mostrando algum interesse na secção de bebidas alcoólicas exóticas. JONATÃ e IORI simplesmente passeiam pela rua abaixo, com atrás, arrastado pela sua obrigação moral e ética de ver esta jornada terminada. Vira-se para o casal, visivelmente consternado.

– Então é para isto que estamos a ir de capital europeia a capital europeia? Para comprar tralha inútil e ver relíquias de valor inestimável a serem vendidas nas ruas?

JONATÃ levanta os ombros, sorriso meio parvo na cara. começa a querer abocanhar a aorta do sacana e fazer sautée com os olhos. Nisto, três broncos vestidos de preto aparecem vindos de nenhures. O do meio é RYUJI, rapaz de pequena estatura e vestido meio à ninja meio à samurai, com um sorriso de escárnio na cara. Dirige-se ao casalinho.

RYUJI – Iori, finalmente encontrei-te! [1]

JONATÃ – Valha-me o meu cabelo perfeitamente penteado e a minha doce, inútil pila, quem raio são vocês?

IORI – Chama-se Ryuji Shintaro, quer que eu seja a namorada dele. Nunca me deu um minuto de descanso enquanto estive no Japão.[1]

JONATÃ – Ah … e pelo olhar dele vejo que não é lá muito simpático.[1]

IORI – Simpático? É arrogante, rico, snobe, ganancioso, possui tudo aquilo que de mais repugnante pode existir numa pessoa.[1]

No meio, entre os dois grupos, está , gargalhando.

– A sério? Ele refere-se ao facto de te ter encontrado com um tom meio entre o sarcástico e o trocista, qual Snape nipónico. Quanto a ti não sei, mas pelo que o Zuzarte nos está a ilustrar, acho que o Ryuji não quer muito do que tens para dar.

RYUJI ri-se, dirige-se ao público com entusiasmo e um rasgado sorriso.

RYUJI – Oh, não, isso é porque o Zuzarte escreve pior do que a Meyer numa trip de ácido. A verdade é que sou um pulha sexista, não preciso de gostar dela para querer que ela decore o meu colo.

– Portanto, não muito diferente do rapaz que ela quer que a possua à louca contra uma parede.

RYUJI – Seja como for, estou aqui para te levar de volta, Iori. Que se fodam as regras do bom senso e do respeito pelo livre arbítrio, tú és minha e quero-te em casa

ZÉ e IORI – Porquê?

Esta questão aparenta paralizar as pobres capacidades mentais de RYUJI. O mesmo começa a espumar da boca e a cagar nas calças. dirige-se ao público.

– Vêem? VÊEM?! sto é que me deixa pasmo. Qualquer pergunta dada a esta gente é capaz de romper esta narrativa. Não há nada a suster este castelo de cartas!

Recuperando da sua azia mental, RYUJI rosna.

RYUJI – Ah … preferes ficar com este bárbaro ocidental que ainda usa arco e flechas?[1]

– Mas os japoneses sempre usaram o raio do arco e flechas, meu hipócrita!

JONATÃ e RYUJI ignoram . Decidem andar às chapadinhas.

JONATÃ – Ouve lá! Dou-te nas trombas!

RYUJI – Não não dás!

Estalo.

JONATÃ – Dou sim!

Estalo.

RYUJI – Não não dás!

Estalo.

JONATÃ – Dou sim senhor!

Estalo.

RYUJI – Não não dás!

Um dos capangas, farto das pirralhices do protagonista e do seu “rival”, decide esmagar os dois. Salta BROK para a cena, bloqueando o golpe, martelo e peitorais em riste.

BROK – Não me parece.

suspira.

– Acho que te quero na cama, Brok.

BROK, agora a melhor personagem neste livro porque nunca é descrita como nada mais que um gajo alto, forte e espadaúdo, sorri e dá um carismático thumbs-up para o público.

Ryuji sacou de uma espada japonesa e atacou Jonathan. Este desembainhou a “Vingadora” e começaram a lutar. Os gregos reuniram-se à volta deles para verem o combate. A luta demorou cerca de cinco minutos até que Jonathan conseguiu, finalmente, desarmar Ryuji.

JONATÃ – Rende-te!

RYUJI – Vai-te foder!

– Por favor, matem-se um ao outro. Usem flechas atómicas. Matem tudo e todos à nossa volta, eu não aguento mais isto.

[…] gritou Ryuji correndo para uma das estátuas de Posídon.

– Possidónio?

Pegou no tridente sagrado que uma delas segurava e, assim que o tirou, os mares começaram a agitar-se como numa tempestade.

– NÃO, O TRIDENTE SAGRADO NÃO! – gritou um padre adorador de Posídon.

– Possidónio.

Ryuji não fez caso e atacou Jonathan, entalando o pescoço dele entre os espigões do lado direito do tridente, que se espetaram numa parede.

TODA A GENTE – Oh noes!

Mas Jonathan agarrou com os dedos na parte de trás do crânio de Ryuji e apertou com toda a força na zona onde os maxilares se juntam.

TODA A GENTE – Hein?!

O outro soltou um grito de dor e largou o tridente, que Jonathan agarrou, tirando-o da parede. Ryuji levantou-se e ergueu a faca, Jonathan conseguiu desarmá-lo com a ajuda do cabo do tridente, que apontou ao pescoço do atacante. Com este gesto, a luta estava ganha.[sic]

Há grande rebuliço. Toda a gente corre para felicitar JONATÃ. Apenas fica de pé, com BROK ao seu lado.

– Eu nem consigo imaginar o tormento do editor para corrigir esta lástima, mas pelo que estou a ver acho que deve ter tido um ataque de fúria e simplesmente desistido.

BROK acena, ele mesmo aturdido com Português tão desastrado. De repente, começa um nome a ser berrado pela turba.

O vendedor que tinha o vaso de Aquiles que Jonathan observara, olhou para esse vaso e reparou que as imagens que o decoravam estavam na mesma posição que aqueles dois lutadores.

– Não pode ser … Aquiles! – exclamou.

Jonathan continuava a apontar o tridente ao pescoço de Ryuji, que sangrava pelo nariz.

– AQUILES! – gritou o vendedor. – É ELE, OLHA!

Os gregos olharam para o homem e este mostrou o vaso às pessoas, que começaram a gritar apercebendo-se que Jonathan seria, sem dúvida a reencarnação do herói:

– AQUILES, AQUILES, AQUILES

A verdade é que todos nós possuimos genes de algum antepassado desde os tempos mais remotos, No sangue de Jonathan corria a tripla mistura de grego, viking e britânico. Assim, a sua incrível habilidade para lutar vinha-lhe de Aquiles, herói grego da Guerra de Tróia.

observa, tal fúria correndo nas suas veias que entra, repentinamente, num surto psicótico. Começa a gritar, a uivar, a estrebuchar. Começa a atacar os gregos à cega, os farrapos da sua roupa soltos no seu corpo. Morde orelhas, espeta os dedos pelos olhos dentro dos transeúntes, bate-se que nem uma besta possessa. São necessários os esforços de cinco homens, e as doces palavras de conforto de BROK, para acalmá-lo minimamente. Ainda assim, solta um uivo de gelar o sangue.

– VAI-TE FODER ZUZARTE!

Fim de cena.

CENA III

Está ZEUS pendurado nas nuvens, a observar a coisa enquanto se desenrola. Levemente abana a cabeça. Sabe o que tem de acontecer, apesar de querer fulminar o autor que o está a forçar a atravessar este suplício. A luz foca-se nele; o resto do elenco observa a partir da beira do palco.

ZEUS dirige-se ao público, de postura digna e senhoril mas gasta, curvada pelo peso de uma titânica responsabilidade.

ZEUS – Eu era uma divindade de orgulho, de poder e majestade, senhoras e senhores. Eu era um ser que comandava o respeito de homens, mulheres e crianças em tempos idos. A minha voz, apesar de não mais assustar as gerações mais novas da humanidade, ecoou através dos tempos graças às Musas, que à humanidade abençoaram com o poder de contar histórias. Eu não sou perfeito; longe disso, coisa que os meus contemporâneos, que a mim veneravam e sacrificavam oferendas, sempre souberam. Isto porque não há poder perfeito. Um poder que reflecte as gentes que o observam vai naturalmente reflectir as suas virtudes e os seus defeitos. Assim, traí Hera inúmeras vezes, a hárpia a quem chamo mulher. Fui para a cama com muita espécie animal para além da humana. Forçei-me a algumas mulheres, inclusive. Sou vaidoso, tempestivo. As emoções carregam-me no seus braços.

E eis-me agora, mero rapaz de entregas, concedendo relíquias de poder formidável a jovens que nada fizeram para as merecer. Não mataram uma hidra; não salvaram uma cidade de um monstruoso e injusto ataque. Não fizeram nada mais, nada menos que espancar um ex-namorado em praça pública. E por isto, Zuzarte força-me a conceder um anel de prata que pára o tempo a Jonatã, uma espada-chicote muito esquisita a Iori e pulseiras a Brok, que concedem ao mesmo cinco vezes a força de Héracles, meu filho.

ZEUS mostra cada item ao público. Depois, descarta-os aos pés do grupo, com toda a força e real desdém de que é capaz.

ZEUS – Oxalá se engasguem em merda, seus filhos da puta.

A luz torna-se mais brilhante. ZEUS desaparece do palco.

Do grupo, surge o som de a bater palmas.

Fim de cena. Cai o pano.

NOTAS

[1] – Está escrito assim, ipsis verbis. Não mudei nem uma vírgula.

Eu sei, este demorou século e meio, mas basta fazerem uma contagem rápida de palavras.

Acho que cada artigo destes tem mais palavras que o capítulo que eles procuram achincalhar.

O que significa que terei um livro prontinho quando finalmente acabar de ler O Filho de Odin.

Tende piedade da minha alma.

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2 comments on “O Zé Lê “O Filho de Odin”, de João Zuzarte Reis Piedade – Capítulo 9

  1. Adeselna Davies
    Junho 7, 2014

    A gente acende uma velinha pela tua alma!

  2. silvapedro30
    Novembro 4, 2014

    Brilhante! A última vez que me ri tanto assim foi quando li o próprio Filho de Odin.

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