The Corner Club

Onde se comenta a narrativa enquanto se beberrica chá. AVISO: Segue-se conteúdo sugerido a adultos.

O Zé Lê “O Filho de Odin”, de João Zuzarte Reis Piedade – Capítulo 11

Não é costume meu divagar demasiado por estas linhas sobre assuntos filosóficos. Pensar é coisa tão chata, tão aborrecida. Há temas de conversa tão vastos que não se sabe bem como discuti-los sensatamente. A morte, o amor, o sentido da vida, a prisão de José Sócrates, o rabo da Kim Kardashian; coisas que pesam na nossa consciência, que exigem a máxima seriedade, assuntos que se erguem, quais tubarões colossais num programa do Discovery Channel, para abocanhar as nossas percepções da realidade. Assuntos que só se consegue explanar em poemas ou canções pop da Niki Minaj. Questões para filósofos, portanto.

Dá que pensar, não dá?

Dá que pensar.

Uma dessas questões decidiu armar uma de stalker, e tem perseguido a minha pessoa ao longo desta semana. Nem é uma das mais complexas de se fazer, dado que é uma questão repetida ad nauseam por crianças de 2 anos e vítimas de tortura.

Porquê?

Não o porquê da tortura que passo a cada capítulo desta descarga intestinal putrefacta, claro, isso é assunto para o psiquiatra e para as doses industriais de vodka e morfina que consumo para lidar com a dor. Quero, isso sim, focar as minhas atenções sobre uma das questões basilares que a leitura deste livro motivou.

Porquê Fantasia?

E como é que, depois de tudo isto, conseguirei delinear o meu raciocínio de outra forma que não vaga e pouco satisfatória?

Se os caros leitores forem de todo como a minha pessoa, têm uma certa paixão pela ficção especulativa no seu geral e pelos trapos com que se costuma vestir. Terão, também, uma certa auto-comiseração por essa mesma preferência. Escrever sobre feiticeiros e aliens é coisa que só muito recentemente se tornou em algo minimamente aceitável em círculos onde queremos ser tomados a sério e não como putos. Já aqui descrevi, em artigos passados, como o fantástico e, em menor plano, a ficção científica, são géneros acostumados a vaguear os canos escuros dos esgotos nos mais variados meios, desde a literatura ao cinema – precisamente porque vistos como coisa para miúdos, literatura esquisita, com elementos esquisitos e desfasados da realidade familiar. Que têm feitiços, varinhas, espadas, naves espaciais, a ver com o mundo desperto em que as pessoas vivem, e que raio de mérito artístico há em fantasiosices para pirralhecos? Que razões podem levar alguém a pensar que pode ser o próximo Tolkien, o próximo Howard, et al?

É verdade que a ficção especulativa no seu geral passou muito tempo nos canos do esgoto, mas hoje em dia tal não podia estar mais longe da realidade. Tanto no cinema como na literatura, o género fantástico tomou conta de tudo. É praticamente uma licença para imprimir dinheiro. Toda a gente agora o faz, e até a literatura de cordel começa a adoptar lugares-comuns da Fantasia. Não se pode atirar uma palantír sem acertar num mago ou num vampiro, e tais elementos são mais populares do que alguma vez foram. Faz sentido económico, portanto, escrever Fantasia – qualquer coisa minimamente decente consegue vender que nem pãezinhos quentes sem muito esforço, vide o exemplo de Eragon (e – spoilers – Zuzarte).

Mas então e sentido artístico? Diríamos nós, que adoramos o género, que sim, claro que faz. Mas há muitas histórias que dispensam elfos e feitiçeiros, funcionando muito bem sem eles. O que é que elfos e feitiçeiros e demais elementos trazem à história, tendo em conta que, como elementos sobrenaturais, exigem mais da capacidade de suspensão da descrença do leitor e, portanto, maior sensibilidade da parte do autor?

É uma questão algo vasta, difícil e passível de ter muitas respostas – há tantos elementos sobrenaturais a serem usados em tantos contextos únicos às narrativas onde se inserem que traçar uma ideia ou tema comuns é tarefa muito complicada. Por si mesmos, sem sequer pensarmos que propósitos poderão ter numa qualquer narrativa ou mundo, são sedutores – tendem a representar aspectos de nós mesmos que idealizamos ou que nos revoltam. Tal como os nossos antepassados, que se maravilhavam com o estranho e inexplicável mundo à sua volta e com as histórias que o mistificavam, estes elementos sobrenaturais tocam-nos, apaixonam-nos, de maneiras reais e especiais. Fazem isso porque são um eco da nossa própria natureza, das nossas aspirações e percepções – elfos que não precisam de temer a morte, feiticeiros que têm um poder inexplicável sobre tudo e todos os que os rodeiam, monstros sedentos de sangue que assombram os nossos pesadelos. Uma parte de nós, ali bem escura, talvez perto das gónadas, delicia-se com coisas destas, com a magia do inexplicável e do estranho, que, se olharmos de perto, não é tão estranho como isso nem tão inescrutável quanto a nossa realidade consegue ser. É um chamamento à exploração do que poderá estar para além daquele horizonte, e das coisas maravilhosas que para além dele se escondem. Permite-nos olhar com olhos frescos e sem preconceitos para uma realidade que, mesmo sendo estranha à nossa, pode ter muito para nos dizer.

É por isso que o género é amado como é. É por isso que adoramos escrever nele. Isso e os moçoilos e moçoilas escassamente vestidos, claro. Não podemos descurar nunca esse detalhe.

Mmmmmm, moçoilos.

Mmmmmm, moçoilos.

Ora, a magia perde-se quando se trivializa estes elementos, quando são apenas usados como mobília. A propósito, George R.R. Martin alongou-se na introdução a um conto em O Cavaleiro de Westeros e Outras Histórias (traduzido por Jorge Candeias e publicado pela Saída de Emergência – foi gatafunhado pelo próprio Martin, ai credo vou desmaiar) sobre este mesmíssimo assunto. Montenegro?

Montenegro Verborreia

Os mais antigos e os verdadeiros fãs ainda acarinham as suas recordações de Bat Durston, esse destemido flagelo dos caminhos espaciais, cujas aventuras apareciam tão frequentemente na Galaxy, no início dos anos 50.
Nesses tempos, Bat ficava sempre com a capa. Com a contracapa. Sob a legenda “NUNCA O VERÃO NA GALAXY” desciam colunas gémeas:

Num tamborilar de cascos, Bat Durston descia a galopar o estreito desfiladeiro em Eagle Gulch, uma minúscula colónia mineira 400 milhas a norte de Tombstone. Esporeou duramente o cavalo para subir uma pequena saliência rochosa … e nesse local, um vaqueiro alto e magro saiu de trás de um grande pedregulho, de revólver na mão bronzeada pelo sol. “Refreia o cavalo e desmonta, Bat Durston”, proferiu o estranho em voz fina. “Tu não sabes, mas esta foi a tua última cavalgada aqui por esta zona.

Numa explosão de jatos, Bat Durston descia ruidosamente pela atmosfera de Bbllzznaj, um minúsculo planeta a sete mil milhões de anos-luz do Sol. Desligou a super-hiperdrive para a aterragem … e nesse local, um astronauta alto e magro saiu do compartimento de ré, de pistola de protões na mão bronzeada pelo espaço. “Afasta-te desses controlos, Bat Durston”, proferiu o estranho em voz fina. “Tu não sabes, mas esta foi a tua última viagem por esta zona específica do universo.

“Acham parecido?”, escrevia o editor H.I. Gold, por baixo das colunas. “Acham bem – um é um simples western transplantado para um qualquer planeta alienígena e impossível. Se esta é a vossa ideia de ficção científica, NUNCA A ENCONTRARÃO NA GALAXY!”

[…] algumas das minhas rejeições foram particularmente vexatórias. Foram aquelas em que os editores não tinham problemas com o enredo, a caracterização ou o estilo, e até faziam questão de dizer que tinham gostado de ler as histórias. Mesmo assim rejeitavam-nas … porque não eram verdadeira ficção científica. […] Quer dizer, francamente. Que estavam estes tipos a tentar dizer-me? Eu era um escritor da Analog, tinha vendido um artigo sobre factos científicos … e eles estavam a afirmar que eu escrevia histórias de Bat Durston [por focar as atenções no protagonista em vez de vários elementos astrofísicos] […] Mas e depois? Quando escrevi as histórias, desloquei-as para outros planetas, e pus nelas alienígenas e naves espaciais. Quão mais ciencio-ficcionais poderiam ser, caraças?

O modelo derradeiro da História de Verdadeira Ficção Científica era a primeira história que Isaac Asimov vendeu, “Marooned Off Vesta”, publicada na Amazing em 1939. […] Era certificadamente ficção científica da pura e da genuína, na qual tudo gira em volta do facto de que a água ferve a uma temperatura inferior no vácuo.
Compreender isto deu-me que pensar. Porque embora tivesse páginas de notas gatafunhadas sobre histórias que queria contar no ano seguinte e no seguinte e no seguinte, nem uma tinha alguma coisa a ver com o ponto de ebulição da água. Em boa verdade, parecia-me que Asimov dissera tudo o que havia a dizer sobre esse assunto em particular, não deixando nada para o resto de nós excepto, bem … Brad Durston.
Mas a verdade é que quanto mais eu pensava no veho Bat, e em Asimov, e em Heinlein e Campbell, e em Wells e Verne, e em Vance, Anderson, Le Guin, Brackett, Williamson, de Camp, Kuttner, More, Cordwainer Smith, Doc Smith, George O. Smith, Northwest Smith e todo o resto dos Smiths e também dos Joneses, mais me apercebia de algo de que H.I. Gold não se apercebeu.
Meninos e meninas, todas são histórias de Brad Durston.

[…] no entanto … às vezes … na maior parte das vezes … as peças do Bardo continuam a funcionar, por mais bizarras que sejam as voltas que os realizadores geniais decidam dar-lhes. De vez em quando […] funcionam de forma magnífica. […]

Mas como pode isso ser? Como é possível que críticos, público e especialistas em Shakespeare aplaudam essas produções à Bat Durston, arrancadas intempestivamente aos seus cenários próprios e naturais?
A resposta é simples. Carros a motor ou cavalos, tricórnios ou togas, pistolas de raios ou revólveres, nada disso importa desde que as pessoas permaneçam. Às vezes atarefamo-nos tanto a traçar fronteiras e a criar etiquetas que perdemos de vista essa realidade.
Casablanca pô-lo da forma mais sucinta. “É a mesma velha história, uma luta por amor e glória, uma questão de fazer ou morrer.”
William Faulkner disse algo de muito semelhante ao aceitar o Prémio Nobel da Literatura, quando falou das “velhas verdades e realidades do coração, as verdades universais à falta das quais qualquer história é efémera e está condenada – amor, honra, piedade, orgulho, compaixão e sacrifício.” Só o “coração em conflito consigo mesmo,” disse Faulkner, “pode originar boa literatura, pois só sobre ele vale a pena escrever.”
Podemos inventar todas as definições de ficção científica, fantasia e horror que quisermos. Podemos desenhar limites e fazer as nossas etiquetas, mas no fim é a mesma velha história, aquela sobre o coração humano em conflito consigo mesmo.

O resto, meus amigos, é mobília. […] O que temos realmente, quando descemos ao essencial, são histórias. Só histórias.

George Martin Meme

TL,DR – O núcleo de qualquer história é o factor humano. Tudo o resto é mobília – ferramentas para uso narrativo.

Eu sei que você me lê, bom Martin, quem não me leria?, portanto permita-me discordar ligeiramente do que acima foi citado. É verdade que o factor humano é crucial, mas essa “mobília” é importante precisamente porque reflecte o factor humano. Podemos focar os olhos inteiramente nas personagens. Podemos concentrar-mo-nos única e exclusivamente no seu desenvolvimento. Mesmo assim, não há ser humano na face desta realidade ou de qualquer outra que exista independentemente do contexto que a ele se impõe. As personagens não são maiores ou mais importantes que o mundo em que se inserem. Seja esse contexto um contexto fantástico, de FC ou de horror, ele molda o modo como as personagens se desenvolvem, da mesma forma que o nosso contexto nos molda. A “mobília” de que fala tem a sua própria magia, e tem muita coisa a dizer sobre nós e a maneira como interagimos com o mundo. Tem de ser muito bem utilizada, de modo a não trivializá-la, e por conseguinte o seu mundo e as suas personagens.

Coisa que Zuzarte faz em quantidades astronómicas.

Não acreditam? Tenho 10 posts de Zé Lê a comprová-lo. Toda a história que Zuzarte escreveu é uma catrapada de elementos sem grande nexo e sem grande necessidade narrativa. Porque é que Jonatã tem de ser descendente de Aquiles, Sigurd e uma data de outros heróis clássicos? Que riqueza narrativa adiciona Vidar à história? Porque é que é dado a Iori uma espada-chicote? Porque é que ela é uma vampira-mas-espera-é-uma-diurna? Porque é que Te’Chall sabe fazer poções de imortalidade? Tanto elemento sobrenatural sem nexo ou propósito estica a suspensão da descrença a tal ponto que uma pessoa não tem outra escolha senão rir das patetices infantis regurgitadas nestas páginas. “Porque sim” simplesmente não chega como explicação – tais coisas não passam de artificialismos, contrivances, que só lá estão porque a Rule of Cool desculpa demasiada porcaria.

E a dose repete-se neste capítulo. Nota prévia; a verdade é que este ensaio não tem muito a ver com este capítulo. É mais um comentário geral ao absoluto desastre que é a forma como Zuzarte usa e deita fora elementos sobrenaturais, como se de fraldas se tratassem.

ANGUS E KRANYATZ

Montenegro Escarnecer

Este capítulo deixou-me furioso, e já vão ver porquê.

Istambul estava a umas horas de distância do sítio de onde partiram, mas Jonathan não tencionava parar na bela cidade turca. Quando a sobrevoavam, avistaram exércitos que se dirigiam para os barcos com destino à Roménia, pois os Turcos estavam e guerra com Vlad Dracul. Homens despediam-se das famílias e jovens diziam adeus às mães e às namoradas. As caras das mulheres e das raparigas mostravam tristeza e receio de não voltarem a ver os seus entes queridos. Era um triste espectáculo e, na verdade, eles provavelmente não sobreviveriam, pois o exército de Drácula era quase todo constituído por mortos-vivos e, pelo facto de já estarem mortos, não podiam morrer outra vez, a não ser que fossem decapitados ou queimados. Jonathan, [sic] pediu a Odin e a Deus que lhes dessem boa sorte na batalha.

É um bocado deprimente saber, em primeira mão, que este trecho representa o expoente máximo da profundeza emocional de todo este caganito. É o equivalente a ver um pombo ferido de morte tentar tomar võo novamente; quase consegue, está prestes a voar!, e tumba!, é atropelado por um autocarro. Está aqui qualquer coisa – um breve e fugaz reconhecimento da futilidade e mortandade de uma guerra, tenha ela a justificação que tenha. Podia falar de o quanto a parte dos mortos-vivos faz a minha narina enrolar-se para dentro do crânio, ou do facto de que as divindades acima descritas não teriam razões rigorosamente algumas para serem compinchas, mas nada bate a pura tragédia que é o tom deste parágrafo.

Dois dias depois de abandonarem o acampamento na Turquia, Jonathan e os seus companheiros chegaram finalmente à Bulgária. Este país é conhecido pela população orc superior à humana. Mal passaram a fronteira, a terra começava a mudar de verde e amarelo para o negro, mas a vegetação continuava a crescer e animais selvagens podiam ainda pastar sem problemas de envenenamento.

Ok, isto tem tanta bujarda que merece uma lista. Ora vejamos;

  1. Foi escrito;
  2. Levou dois dias a chegar a um sítio, com não menos de dois animais sagrados que viajam à velocidade da luz e capacidade de os transportar;
  3. Foi escrito;
  4. Xenofobia casual em cima de um país cuja cultura e história Zuzarte não conhece e com a qual não se interessa minimamente, mostrando um irritante iberocentrismo;
  5. Simbolismo e tentativas de subversão mesmo muito rascas e óbvias – “ai, a terra é tão feia, toda de negro, mas as coisas ainda estão vivas!, e merecem viver!, porque não são veneno okthnx”;
  6. esta porcaria foi escrita oh meu deus

Ao cabo de dois dias de viagem (outra vez), decidem acampar. Arthos, o grifo, acende uma fogueira com os olhos à Super-Homem, e começam a comer o javali que Jonatã foi caçar. Nisto …

Enquanto comiam, Jonathan ouviu um barulho vindo de um arbusto e não descansou enquanto não verificou de onde provinha[sic]. Levantou-se e deu de caras com um rapaz orc (Homo Kobalis orcus) com cerca de seis anos de idade.

Isto não vai ir a lado algum de jeito, posso dizer desde já. Depois da costumeira imitação de Attenborough, em que Zuzarte escorre, na sua prosa única, sobre o quanto orcs e humanos são iguais excepto cor de pele e presas a sair do maxilar inferior —

Muito subtil, Zuzarte. Muito subtil.

Muito subtil, Zuzarte. Muito subtil.

— segue-se uma das passagens mais desastradas que já li em toda a minha breve vida.

A criança orc olhou para Jonathan e recuou, assustada.

– Olá, amigo! – saudou Jonathan, simpático. – O que é que fazes aqui?

– Por favor, senhor humano, não me faça mal – pediu o rapaz orc, assustado.

– E porque haveria de te fazer mal? Tu não me fizeste nada …

O menino olhava para os olhos de Jonathan e viu que ele deveria ser boa pessoa. Depois levantou-se e apresentou-se.

– Chamo-me Angus, e tu?

– Sou Jonathan Strongheart.

Ao ouvir o nome, o miúdo virou as costas e desatou a fugir, o que surpreendeu Jonathan. Pouco depois de Angus ter descido de uma elevação, ouviu-se um “Poc” e Jonathan correu para ver o que lhe acontecera. Encontrou-o inconsciente, deitado com os pés no meio de um pequeno arbusto de silvas e com a cabeça em cima de uma pedra. Pegou nele e levou-o para junto dos compaheiros. Mace tratou-lhe das feridas com a sua magia curativa, que aprendera com o pai e com religiosos. As feridas de Angus sararam num décimo de segundo e ele recuperou os sentidos. Ao ver-se rodeado de humanos, entrou em pânico e tentou levantar-se, mas foi dar de costas contra Arthos que se encontrava sentado atrás dele.

– Então, rapaz? – exclamou ele.

Angus viu que não tinha nenhum sítio para fugir, e por isso permaneceu quieto, cheio de medo.

– Acalma-te, não te fazemos mal.

Angus olhava para o grupo e respirava com dificuldade por causa do medo que tinha de Jonathan.

– Por favor, não me mate, não quero ter o mesmo destino que os Orcs Iberos – morrer da forma mais dolorosa às mãos de um humano sem coração.

Ao ouvir isto, Kenchi agarrou no bocado de trapo que servia de camisola a Angus e começou a gritar.

– Como te atreves a dizer que Jonathan Strongheart não tem coração? Este é, sem dúvida, um dos humanos mais generosos e misericordiosos que há! E atreves-te a dizer que ele não tem coração? Este homem tem um coração sim, um coração de ouro!

Headdesk

Onde é que sequer começo? Digam-me, onde porra começo?!

Nada. Nada faz sentido. Absolutamente nada.

Primeiro o puto borra-se de medo. Depois ai não, ele é boa pessoa, bora lá fazer amigos!, yay! Depois, desata a correr, AI CREDO JONATÃ ASSUSTA-ME UI UI. E tumba, cai ele, e agora tem um dói-dói da tola, e diz a primeira coisa honesta que li neste texto (sim, Jonatã, seu asno de merda, deves ter um coração algures perto do recto), e Kenchi, esse psicopata, decide pegar no miúdo assustado e berrar-lhe que nem um doido.

Onde porra estou eu metido? Como raio pensaste que isto tem algum sentido, Zuzarte? Como?! Como podes tu ter a lata de dizer que esta gente tem um peido de coração quando passaram a história toda a trazer devastação, desordem e mais danos colaterais que todos os drones do Obama juntos a todo o sítio que visitaram até agora? Por mais esquizofrénica que seja a reacção do puto, tenho de concordar que é a única coisa que tem um pingo – um pingo! – de sentido. Jonatã é uma praga bíblica! Fujam dele a sete pés!

Acalma-te, Zé, ainda rebenta um aneurisma.

Ok. Decide o grupo dar de comer ao miúdo e levá-lo para Varna, a “maior cidade de orcs da Bulgária”, encostada ao Mar Negro. Como de costume, Zuzarte brinda-nos com exactamente zero descrição da mesma, excepto para notar que “curiosamente, conversavam como seres racionais em vez de se porem à pancada uns com os outros”, e eu resisto à tentação de mandar o racista casual snifar ébola.  Começa toda a gente a fugir de Jonatã, pois “já chegara ao conhecimento de quase todos os Orcs da Europa o massacre que acontecera em Espanha, levado a cabo por um humano de cabelos de prata, mais conhecido como “Matador”.”

Desculpa, “massacre”? Que chamon andaram vocês a fumar? Vhan não forçou os orcs há seis capítulos atrás a atacar Toledo. Atacaram a cidade porque queriam matar Jonatã, e agora acusam-no de ser a primeira encarnação de Hitler?

Um orc que se encontrava perto de uma loja de armas pegou num machado e correu na direcção de Jonathan.

– SAIAM DAQUI! NÓS NÃO VOS FIZEMOS NADA! – gritava, furioso.

Jonathan esquivou-se com um mortal para trás e desembainhou a espada.

Mas porque raio têm vocês o trauma?! VOCÊS É QUE ATACARAM TOLEDO! Qual massacre qual porra? Os Toledanos  defenderam a sua cidade contra a vossa agressão! Como podem vocês fazerem-se de coitadinhos?

Jonatã, claro, dá cabo do orc. Em vez de o matar, decide finalmente usar da palavra, ajudando o orc derrotado a levantar-se. O desgraçado, chamado Gor, está espantado, esperava ser morto, mas a misericórdia falou mais alto, yay! Angus entra em cena a seguir, com esta pérola.

– Estás a ficar velho, Gor – comentou o rapaz, sorrindo.

– Menino Angus! Graças a Thor, vós voltastes!

– Sim, Gor, o humano com quem tu lutaste ajudou-me a voltar e tratou de mim. Acho que nos enganámos em relação aos humanos.

th_Angry– E o vosso pai? Ainda está à vossa pro … – e susteve-se ao ver que apareceram um orc montado num lobo negro gigante, acompanhado por mais dois orcs montados em lobos cinzentos gigantes, menos corpulentos. Aquele que montava o lobo negro gigante desmontou.

Usava uma armadura negra de ferro e trazia um martelo com a cara de um lobo esculpida na pedra inquebrável. Tinha barba e pequenas tranças caiam-lhe sobre os ombros.

A tua subtileza não conhece limites, Zuzarte.

A tua subtileza plagiante não conhece limites, Zuzarte.

– Pára, pai!

– Angus, abençoados antepassados, estás vivo! – disse o orc abraçando um Angus feliz e com lágrimas, mesmo não sendo muito usual um orc chorar.

– Como é que voltaste?

– Foi Jonathan que me trouxe.

O Orc olhou com um ar zangado, mas não o atacou; em vez disso, aproximou-se, olhou-o nos olhos e estendeu-lhe a mão.

– Nunca pensei em dizer isto, mas … obrigado por terem salvo o meu filho. Eu sou Kranyatz, chefe dos orcs de Varna, recebi o meu nome através de um Gigante.

Jonathan apertou-lhe a mão.

– Não tem de quê, Kranyatz. Peço-lhe desculpa pelo que aconteceu com os orcs, na Península Ibérica [?!?!?!?!?!?!?!?!?!]

– Desculpas aceites.

WTF

– Eu também tenho de me desculpar, Strongheart. Enganei-me a teu respeito, pensava que tu eras um assassino implacável, mas na verdade és um homem de bom coração [hahahahahahahaha]. Encontraste o meu filho, e por isso faço-te uma proposta …

– Estou a ouvir …

– Por teres ajudado o meu filho a voltar, ofereço-te a minha ajuda e serviço militar em qualquer ocasião.

– De acordo. E o que tenho de fazer em troca?

– Tentar estabelecer um acordo de paz entre orcs e humanos.

– O teu pedido é difícil, mas tentarei concretizá-lo.

E depois toda a gente junta-se, canta Kumbaiah, e o grupinho segue caminho.

Claro. Claro! Isto tinha de acontecer a dada altura, não tinha? Afinal de contas, trata-se de um gigantesco Mary Sue. É claro que Jonatã teria de chegar a um sítio e, de rompante, eliminar todas as tensões raciais com um agitar da sua metálica pila. Tensões que não faziam muito sentido em primeiro lugar. Sinto as veias a latejar no meu corpo, pulsando de fúria.

Só há uma coisa que me dá conforto, no meio da minha indescritível dor.

Só mais quatro capítulos. Vá lá,  Zé, só mais quatro capítulos.

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6 comments on “O Zé Lê “O Filho de Odin”, de João Zuzarte Reis Piedade – Capítulo 11

  1. Sónia
    Dezembro 9, 2014

    *aplausos* Parabéns, Zé! Chegaste mais longe do que qualquer pessoa sã jamais almejou! Espero que ainda tenhas cabeça para continuar!

  2. Ana Isabel Gallo
    Dezembro 9, 2014

    Nunca um livro tão mau foi motivo para uma coisa tão boa:D

  3. Pingback: Uma série de links nacionais interessantes – Dezembro | Rascunhos

  4. Fábio
    Fevereiro 11, 2015

    A sério, tu és motivo de uma meia hora bem passada de teatralizarão ao ler as tuas dores de cabeça.

  5. Fábio
    Fevereiro 11, 2015

    * Teatralização

  6. l.i.s
    Dezembro 28, 2016

    “Isto é que é uma bela vida, jogar pokemon ao lado de uma bela namorada que me lê o Zé lê” ispsis verbis – te amigo André Cx portanto tanto o André como eu devemos este blog não só entretenimento mas também as realizações de sonhos de vida. E que moçoilos esses.

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