The Corner Club

Onde se comenta a narrativa enquanto se beberrica chá. AVISO: Segue-se conteúdo sugerido a adultos.

O Zé Lê “O Filho de Odin”, de João Zuzarte Reis Piedade – Capítulo 13

Caro João,

Não sei bem se esta é a melhor maneira de me dirigir a ti. Espero que não te importes. É outra coisa que não “Zuzarte”, que não quero usar aqui e agora por razões que vão tornar-se óbvias em breve.

Não faço ideia se alguma vez leste o que por aqui escrevo. Se sim, os meus sinceros pêsames. Se não, olá. Sou o Zé. Prazer. Não, não estou numa de tecer brincadeirinhas tontas ou engendrar truques cruéis. Para variar, estou a pôr de parte a persona que visto quando escrevo os meus artigos normais. “Porque raio me diriges a palavra?”, provavelmente estás a perguntar, “e porque raio devia eu prestar uma nesga de atenção a o que quer que tenhas para dizer? Especialmente em formato carta aberta?” Perguntas muito pertinentes. Tem alguma paciência comigo. Tendo a ser verborreico nestas coisas.

Essencialmente, tenho algo a dizer. A ti, sim, mas também ao meu público, algum do qual falhou em notar ao que venho no que ao Zé Lê concerne.

Eu escrevo um blogue – este blogue, para ser mais preciso – cuja origem está no desejo de tecer uma crítica compreensiva e satírica, de fio a pavio, d’O Filho de Odin. Tenho um estilo muito sui generis; estridência a rodos, brejeirice, léxico madeirense para irritar os leitores continentais, recorrência liberal à hipérbole, e mais. É uma voz forte, com personalidade, assertiva. É algo capaz de criar ideias erradas. Por exemplo, há entre alguns dos meus leitores e alguns dos críticos que tenho apanhado pela Internet a ideia de que te odeio, ou que mereces todo o ódio e escárnio possíveis por teres escrito O Filho de Odin et al. Tomam inspiração na minha verbiage, regojizam-se na indignação e divertem-se a dar palmas quando achincalho O Filho de Odin. Juntam as vozes à minha. Ganham gosto e, atrevo-me a dizer, alguma shadenfreude mesquinha, ao ver-me rasgar a coisa aos pedaços.

Notei isto há algumas semanas, a cruzar-me pela Internet com outras críticas e que mais. Devo dizer que preocupou-me. Preocupou-me imenso. Entre comentários que recebi no ano passado acerca da minha actividade e o que eu próprio li por aí, tive o suficiente para chegar a algumas conclusões importantes.

Escrever uma crítica é fácil. Quem o faz arrisca relativamente pouco, quando comparado ao que um autor passa ao partilhar a sua obra com o público. É divertido escrever uma, quer positiva quer negativa; as positivas enaltecem algo de que gostámos, exprimem as emoções positivas que a experiência acordou, qualquer que seja a arte; as negativas são catarse, são o murro metafórico no saco de areia, o berro na almofada. A crítica é a reacção, em última análise. Não pode ser comparada à acção que é criar, ter a obra lá fora, exposta, uma parte do criador vulnerável e sujeita a tudo. Como escritor que sou, é-me difícil fazê-lo. Reconheço o quão difícil é de aguentar, por vezes, o escrutínio.

Não vou dizer, é claro, que a crítica não tem fundamento; é extremamente importante manter o sentido crítico para que haja algum padrão de qualidade mínimo. Para que possamos encorajar maiores esforços, maiores triunfos entre criadores, para que a arte se mantenha saudável e relevante. Até os melhores escritores precisam da crítica; precisam dela para que possam saber onde erraram, onde falharam. Onde podem descobrir que outra avenida de pensamento possam seguir. É um autor para milhares ou milhões de leitores; os olhos do criador, mais vezes que não, são enviesados

Dito isto, devo dizer, sem rodeios, para que não hajam confusões; O Filho de Odin vale mais como obra acabada do que muita crítica que o possa escrutinar. É o autor que assume todos os riscos, todos os esforços. São três páginas de crítica para duzentas, trezentas de obra. Umas horitas de trabalho comparadas a semanas, meses, anos. Por mais bem feita e pertinente que uma crítica seja, deve à obra a sua existência.

Quando comecei, tinha uma missão em mente. Queria criticar o livro ao mais ínfimo pormenor, já desde o início sabendo que não iria gostar da leitura, mas não queria que os meus artigos fossem simplesmente um ataque cego ao livro ou ao autor, um achincalhanço desregrado e despropositado. Queria focar-me mais no registo satírico e no conhecimento literário que pode advir de qualquer análise aprofundada a um livro. Queria que cada artigo tivesse mais substância que o apontar do dedo ao Imperador desnudo. Queria tudo isto porque a última coisa de que estava à procura era de atacar-te pessoalmente. Logo nos primeiros capítulos, notei a história por detrás da escrita d’O Filho de Odin, quão jovem eras quando começaste (exactamente a mesma idade do que eu, como notei na altura). Notei que, se não tivesses sido tu, o teu lugar seria preenchido por mim ou por qualquer outro puto que tivesse escrito umas coisas à volta daquilo que mais gostava. Fi-lo porque reconheci-me, reconheco-me, em ti.  Fi-lo porque, se nos tivéssemos conhecido na altura, teríamos sido os melhores amigos, tal é a partilha de gostos.  Fi-lo porque sei, de antemão, o pesadelo que é ter uma parte do nosso passado, que talvez queiramos deixar para trás, acorrentado a tudo o que fazemos no nosso presente.

Aqui, por exemplo. O username? Galadtir. A pessoa por detrás de Galadtir? O mesmíssimo que te escreve estas palavras. Escrito exactamente na mesma altura que escreveste O Filho de Odin, um longo chorrilho de posts num fórum de role-playing. O conteúdo não é melhor que o teu. Eu limitei-me a vestir de forma mais ou menos caca com as vestes da Terra-Média, porque estava vidradíssimo com O Senhor dos Anéis, filmes e livros ambos. Nestas idades, escrevemos o que escrevemos sem consciência, simplesmente porque queremos nos expressar. Porque achamos piada. Tentar ver cinismo naquilo que um puto de 15 anos escreve, sem uma dose industrial de tongue-in-cheek, é parvo.

É com a dita tongue-in-cheek que escrevo o que escrevo nestes posts, quando começo a achincalhar tanto a história quanto a figura caricaturada a que apelido de “Zuzarte”. Porque eu próprio fui um puto estúpido. Todos nós fomos putos estúpidos. É coisa que alguns críticos teus, e algum do meu público, se têm esquecido quando lêem o que escrevo e pensam que o digo com toda a seriedade. Pensam que tudo o que quero ver é Zuzarte a arder. É absurdo aplicar o nível de exigência que aplico à história de O Filho de Odin – a absurdidade disso mesmo é precisamente o ponto chave da piada, para além da absurdidade que surge da obra lida. O meu rasgar de vestes, o meu bradar aos céus, não passa de teatro. Nunca passou.

Vou eu deixar de escrever como escrevo, ou de criticar O Filho de Odin como critico? Vou pedir desculpas por o ter feito? Não, porque mereces o meu respeito. Mereces sinceridade. Dizer outra coisa seria faltar ao respeito não só a ti e às tuas capacidades, mas também a todos os outros autores que procuram o mesmo de quem os critica. Mesmo assim, a verdade é que o teu livro, péssimo como o acho, foi a obra literária portuguesa que mais me ensinou. Mais que Eça de Queiroz, mais que Saramago, mais que Chagas Freitas ou Rebelos Pintos, mais que Migueis Tavares ou Rodrigues dos Santos, mais que muito melhores escritores do que nós. Motivou-me a escrever e a pensar detalhadamente sobre os ingredientes que compõem uma história. Fez-me rir e reagir com mais veemência do que tudo o que alguma vez li. Ajudou-me a ser melhor escritor, melhor crítico, melhor pessoa. Pode não ter sido esse o teu intento quando o escreveste; pode até não trazer muito conforto após anos de, presumo, chacota. Apesar de tudo, a verdade pura e desprovida de estridências é essa. Verdade essa que, no meio de tudo o que nestes anos tenho dito, merece sobressair mais que tudo o resto.

Não vou pedir que leias tudo o que escrevi aqui no blogue com novos olhos, caso alguma vez o leias ou já o tenhas lido, nem sei se acharias piada ao meu estilo, especialmente tendo em conta que o material de origem é a tua própria obra. Em boa verdade, alguma da linguagem que usei não foi a melhor. Exagerei no exagero, rasguei vestes a mais. Se te magoei, se encorajei algumas das vozes mais críticas a aumentarem os níveis de fel, as minhas sinceras desculpas. Tudo o que escrevi, escrevi na ideia de troçar o absurdo da história, troçar o absurdo das personagens envolvidas, rir com o conflito entre o que achávamos quando éramos miúdos e o que sabemos agora, nunca de ti. Levar à luz o ridículo da situação. Fazer algo positivo de algo que muitos vêm como negativo. Tenho esperança que o vejas dessa maneira.

Os meus leitores vão achar esta carta aberta algo estranha. Vem do nada, sem aviso ou foreshadowing de jeito, qual urro de Ronaldo em plena cerimónia formal. O teor da mesma vai chocar os mais incautos, não só porque imaginavam que  eu estava morto, dada a falta de publicações, mas também porque o que me propus a fazer aqui é algo de muito diferente do que tenho feito até agora. Seja. Acho importante que isto seja dito. Se a maior vitória de um escritor é uma obra que não deixa ninguém indiferente, conseguiste algo que muitos só sonham fazer.

Um brinde às parvoíces que fizemos quando éramos putos.

Um abraço sincero, de alguém que não gosta de Dragonforce mas adorava World of Warcraft et al,
José Pedro Castro

O DRAGÃO DAS NEVES

Mmm, muito pó por estas bandas.

Sentiram saudades? Eu também. O Zé Lê, fonte gloriosa de conhecimento e hilaridade, já merecia uma actualização. “Onde estiveste?”, perguntam as hostes, sequiosas de notícias. A vida é uma merda, minha gente, tão simplesmente. 2015 foi um ano daqueles.

Prontos para voltar à sombria Roménia? Da última vez que deixámos O Filho de Odin, Jonatã juntou o seu grupo ao da sua paixoneta juvenil, Van Helsing. O grupo praticamente inútil de personagens é arrastado pela Europa Central.

“Após umas horas de caminhada, o grupo de Jonathan e o de Van Helsing chegaram à Valáquia. O castelo de Drácula encontrava-se a quinhentos metros de distância, mas o acesso encontrava-se no sopé dos Alpes da Transilvânia.

Andaram durante quadro dias até que chegaram ao sopé da cordilheira montanhosa.”

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Como de costume, começa cedo.

Vamos lá ver. O nosso grupo de intrépidos caminha durante “umas horas” até ao castelo de Drácula, que se encontra a basicamente dez minutos de caminhada a passo acelerado. O acesso, no entanto, está a quatro dias de distância, nas montanhas.

Que raio de castelo é este? Como porra precisam de quatro dias só para chegar ao acesso de um castelo literalmente a uma caminhada breve de distância? Como é que “umas horas” bastam para percorrer os quilómetros necessários para chegar ao sítio? Que género de unidade de medida alienígena está a ser aplicado aqui?

Quatro linhas de texto apenas, e fico com tantas, tantas, tantas perguntas.

Literalmente a seguir;

“Quando se encontravam a dez metros de distância, Vhan apareceu, mesmo em frente deles, montado no seu Pesadelo.

– Finalmente encontrei-te, Jonathan”

– Vhan. Mas que surpresa desagradável!”

 

Wild Vhan

E eu que me esqueci das Pokébolas em casa.

 

Uma pergunta, Jonatã. Como é que sabes o nome do Vhan? Eu tive curiosidade, e fui cavar às páginas anteriores. Nem uma vez encontrei menção de uma única apresentação, formal ou informal, directa ou indirecta. Nem sequer uma daquelas frases de usar e jogar fora. Leste o guião? Aquele pedaço de papel grosso aí no teu bolso, isso é o guião do Zuzarte?

Tudo isto, meus caros, em menos de um parágrafo e meio. Ainda mal comecei.

Jonatã  e Vhan trocam picardias. “Vai-te embora, estás em propriedade privada.” “Não, não vou, vim matar um mauzão e não vou embora sem espetar a metáfora metálica da erecção possante que não tenho pela goela da besta abaixo!” “Não, ides faleceri!”, qualquer coisa assim, e segue-se página e meia de combate.

Página e meia.

Uma cidade não merece um parágrafo. Um país não merece mais que um par de frases. Uma cultura nem se menciona. Cenas de morte e chacina? Gervásio, põe Dragonforce a tocar, bora martelar isto!

“Ambos lutavam com a mesma destreza e agilidade; a luta ainda mal começara quando Vhan rodopiou lateralmente no ar e deu um pontapé, com o espigão que tinha na ponta da bota, no ombro de Jonathan: empurrou-o com uma onda sónica que lhe saíra da mão e este foi projectado a alguns metros do chão.

Com um olhar frio e cruel, vindo dos seus olhos verdes e cheios de olheiras, Vhan aproximava-se com a espada em riste. Por sorte, a ferida de Jonathan sarou em meio minuto e isso permitiu-lhe levantar-se a tempo.”

Estamos a falar de dois guerreiros vestidos de armadura pesada. A largar laterais voadores. Sim, eu sei que esta é uma história de fantasia, em que temos um cavaleiro da morte a usar … ondas sónicas … para derrubar um oponente. Dito isto, eu estou à espera das ondas sónicas. Mais ou menos. Das cambriolas à Cirque du Soleil é que nem tanto.

Depois, sabe-se lá porquê, Vhan esperou meio minuto para que um inimigo prostrado no chão recuperasse e se levantasse. Deve ser um cavaleiro negro zen, ya? Tudo nas calmas, bute lá combater com um ‘cado d’erva, meu! Mmmmmmm, chamon do bom. As Cruzadas devem ter sido por isso. A moca boa estava toda na Terra Santa.

Correm um para o outro. Trocam golpes. Vhan pára um e, não se consegue perceber muito bem como, agarra Jonatã pelo pescoço.

“- Que a vontade de Drácula seja concretizada – sentenciou, erguendo a espada à altura do pescoço de Jonathan.

Tudo parecia perdido, mas, de repente, o rapaz lembrou-se de uma técnica que o pai lhe ensinara: pôs os dedos na parte de trás da cabeça de Vhan, onde os maxilares se encaixavam, e apertou-os com todas as suas forças. O cavaleiro da morte começou a perder as forças e a gritar de dor e, aos poucos, foi largando Jonathan. Este continuava a apertar-lhe o local de encaixe do maxilar, e quando Vhan já estava de joelhos, Jonathan deu-lhe uma cabeçada na ponta do nariz, fazendo com que o outro o libertasse por completo.”

Ora bem.

Eu não sei lá muito bem como avaliar isto. Eu tive aulas de karaté quando era miúdo; nunca passei do cinturão branco, por muito que tentasse. Chumbei no primeiro exame. Daí até agora, nunca estive envolvido em porradona da grossa, em parte porque sou um gigantesco cobardolas, em parte porque sou um badocha com a destreza motora de um mamute num museu de História Natural. Sim, sou adulto, sei resolver picardias sem chegar a vias de facto, mas isso não interessa.

Eu tentei replicar o que li aqui em cima com o meu irmão, que tem muito mais experiência do que eu na mui nobre arte do rebenta-fuças.

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Acabámos mais ou menos assim.

Segue-se um breve parágrafo de recuperação para Vhan, que carrega em cima de Jonatã apenas para pregar-lhe mais uma rasteira. Vhan estatela-se no chão que nem uma menina, Jonatã dá uma pirueta para trás, e eu bocejo, porque este combate tem tanto de empolgante e tenso quanto o clímax de Cavaco Silva.

” – Bonito contra-ataque, não esperava menos de um jovem paladino – observou Vhan, sarcástico. – Mas será que és capaz de te defender disto? – perguntou, parecendo voar a uma velocidade estonteante.

Mas Jonathan cortou-lhe a garganta, dando um passo na diagonal, o que lhe fez vencer a luta.”

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Mmmm, sim, Maria, assim mais para o lado, que estou lá no pico, lá no pico. Vamos, filha. Só mais um bocadinho. Mmm. Sim, estou a ter muito muito prazer, quase não dá para as sinapses. Ai, que prazer. Muito prazer. Mmm? Quê? Minha cara, acorde lá, estou no momento! Ora que chatice. Assim não dá. Onde pus o bolo-rei?

O Pesadelo de Vhan fica todo eriçado, começa a cuspir fogo, e Van Helsing atira-lhe um frasco de água benta nas narinas para acabar com a brincadeira.

É isto? É só isto? Entre isto e prosa erótica a descrever a vida amorosa do nosso ex-Presidente da República não sei o que prefiro. Vhan não é ameaça nenhuma. Nunca se apresenta como obstáculo a sério, é só uma inconveniência, agora despachada com um simples passo ao lado e uma estocada no brônquio. Página e meia de desperdício de tempo. Nem uma canção de Dragonforce enche. Tenho a certeza que o combate foi muito mais épico na tua tola, Zuzarte, mas por amor da Santa, não podias deixar o Jonatã a sangrar um bocadinho mais? Ou, sei lá, envolver o grupo gigantesco de Action Men e Barbies que ele carrega atrás?

“Jonathan aproximou-se de Vhan, que se encontrava deitado com sangue a jorrar do pescoço.

– E assim chega a hora em que morrerei pela segunda vez … e esta será a minha última … cof [sic] … foi uma honra lutar contigo, Strongheart … espero que entregues a Drácula o mesmo destino que me entregaste … cof … e ao seu filho Malus … também … Boa sorte e que Deus não te abandone como me abandonou a mim …

E assim morreu Vhan, o corrupto paladino de Hélio. Jonathan levantou-se e fez o sinal da Santa Cruz, o mesmo fez Van Helsing e depois, todos juntos, partiram em direcção à montanha, deixando o corpo do cavaleiro da morte ali no chão com a garganta cortada.”

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Como porra consegue ele falar com a garganta rasgada ao meio à espadeirada? Porque merda estás tu, Vhan, a mostrar ao Jonatã, este monte de esterco psicopata, um peido de respeito? Porque rabo estás tu a falar de Deus quando és a merda de um paladino de Hélio? Porque pénis é que eles vão em direcção da montanha quando estavam literalmente a dez metros dela? E PORQUE CARALHO FURADO A ÁCIDO É QUE JONATÃ O DEIXA ALI MORTO DAQUELA MANEIRA?!

És o herói, raios te partam! É suposto seres o bom da fita! O exemplo a seguir! Sempre que acontece alguma coisa que te permita provares, de uma vez por todas, que te importas com os valores do Bem para além das platitudes cansativas que estás constantemente a repetir, fazes merda. Pior; fazes merda da maneira mais sacana possível. “Que adversário valoroso! Tratou-me com honra no momento final! Deu-me a mostrar que, afinal, não estava corrompido até ao osso! Que faço eu? SANGRA, PORCO, FICA AÍ PARA OS LOBOS.”

Que se lixe. Morre lá então, Vhan, seu plágio ambulante. Não deixas saudades.

“Existia uma neblina por todo o lado, exceptuando no topo das montanhas, em que o céu estava límpido e nevoeiro ocultava a paisagem e os topos das montanhas assemelhavam-se a pequenos montes cobertos de neve que pareciam sair das nuvens.

De súbito, ouviu-se um barulho semelhante a um rugido.

– Hei, Brok, que é que comeste ao pequeno-almoço? – perguntou Jonathan.

– Nãa sei, senhor, estou maldisposto, sinto gases.”

 

Montenegro Literatura

 

De repente, dragões.

“Mace olhou para as nuvens e, de súbito, a cinco metros de distância da rapariga, um enorme Dragão das Neves (Draco Arctus) surgiu. Jonathan virou-se e viu o réptil gigante voar sobre eles e começar o ataque enquanto soltava um rugido aterrador.”

Estão prontos, meninos?

Hora Attenborough

“Tinha as escamas brancas e tão geadas, que bastava alguém tocar-lhes com a testa para ela ficar colada – sabe-se lá se não é daí que vem a graçola dos Americanos quando dizem a alguém para tocar com a testa num poste de metal. Ao contrário dos outros dragões que têm um bafo de fogo, estes lançam uma rajada de vento gelado capaz de transformar pessoas em estátuas de gelo. Os olhos são, geralmente, verdes, mas também podem ser azuis, conforme a terra onde o réptil se encontra.”

Criaturas deveras fascinantes.

Segue-se outro combate de dúbia majestade, com o grupo inteiro a tentar derrubar o monstrengo. Brok usa um feitiço qualquer para envolver a espada de Jonatã em fogo que arde com muita força, Jonatã dá um par de tiros nas asas da besta, e quando o animal cai no chão, aproxima-se o intrépido herói, espeta-lhe a espada ardente no coração gélido, e morre o dragão ali no sítio.

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Insiram piada sobre flechas em joelhos aqui.

Só isso. Se pensam que estou a sumarizar isto demasiado, apenas eliminei umas cinco linhas de texto. A letras em tamanho 14 ou 16, a ficha técnica não diz qual.

” – Brok, que espécie de fogo era aquele? – perguntou Jonathan.

– Era o fogo de Muspell [Nota do Editor: Reino de fogo na mitologia viking que estava envolvido na Criação do Mundo.], a chama que nunca morre; podes fazer o que quiseres que ela nunca se apaga, nem mesmo com água. Apenas o sopro de Hymir é capaz de a consumir. Felizmente eu conheço o contrafeitiço – e dizendo isto, Brok apagou a chama.”

Não há palavras. Eis pérolas, meus lindos, desfrutem. Quanto a mim, acabou-se. Brok, tu? Eu? Acabou-se. Porque é que abriste a boca? Estavas tão bem assim, caladito, atraente, um Boba Fett a desconto com peitorais à mostra e abdominais onde podia ralar queijo. Abriste o bico e só saiu merda com ligeiro travo a estereótipo alentejano. Não, não; acabou. É melhor assim para nós os dois. Vai. Vai! Deixa-me!

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OLHA VAI PRA OUTRO LAAAAAADO! A VIDA ASSIM É TRISTE FAAAAAAAAAAAADO!

Vocês devem estar a pensar, e a pensar bem, “mas ó Zé, seu naco de perfeição divina, como é que o nome do capítulo é ‘O Dragão das Neves’ e ainda não acabaste?” Pois, é uma pergunta pertinente. A verdade é que há mais quatro páginas e meia de texto, com o caveat que cada página leva uma média de cerca de 150 palavras devido à formatação.

Só passámos seis até agora.

Seis.

“Após umas horas de caminhada, o grupo chegou finalmente ao sopé dos Alpes da Transilvânia.”

Outra vez? Quantas vezes precisam eles chegar às montanhas, afinal, para que se registe de uma vez por todas que, porra, chegaram?

“Ao longe, via-se um grupo de ciganos, com máscaras de pano a taparem a cara, que levava uma carroça com um caixão.

– Drácula deve ir ali dentro – obsevou Harker.”

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Ciganos.

Ciganos!

Volto a repetir. Ciganos.

Estou fulo. Tenho tentado, ao longo deste texto, refrear-me, Zuzarte. Tenho tentado não esganar-te que nem um doido. Estou a perder essa batalha a passos largos! Ciganos? CIGANOS?!

Porque pensam que Drácula vai no caixão, usando lógica tortuosa que não está de todo descabida deste descalabro, decidem ir atrás dos … ai a minha tensão … ciganos. Ignorando completamente o facto de que qualquer pessoa com dois dedos de testa veria o que se está a passar como uma armadilha. Em vez de dispararem a metralhadora em forma de cruz ou aniquilarem o grupo de … ciganos … com flechas bomba-atómica, para seguirem caminho o mais depressa possível, não; decidem perseguir os … ciganos.

Ai puta madre.

“Os ciganos continuavam a viajar até que chegaram a um local perto de uma floresta. Aí Jonathan, Iori e Brok esperavam escondidos o momento propício para fazerem uma emboscada. Jonathan preparou o arco e uma flecha prateada, esperando pelo momento oportuno, Iori fez o mesmo e quando os ciganos estavam a poucos metros de distância, o rapaz rodeou a árvore, apontou o arco e disparou uma flecha directa ao coração de um cigano. Brok saltou da árvorem pegou no seu machado e correu em direcção aos ciganos, passados alguns momentosm só se viam ciganos caídos por terra [sic, sic, mãe de deus sic]”

Yay limpeza étnica em literatura infantil!

Serei eu o único que se sente profundamente horrorizado? Serei eu um triste idiota que está aqui a ler mais do que devia nisto? É que estas duas páginas são só isso, Brok e Jonatã a rebentar crânios e demais partes a … ciganos.

Na Roménia.

Em pleno século XVIII.

Zuzarte, a badana diz que tu estudaste História. Os Romani foram um povo horrivelmente perseguido na Europa por grande parte da sua história. Foram escravos no território Romeno até 1856. Foram alvo de limpezas étnicas, mutilações que os marcassem como ciganos; os filhos eram-lhes tirados para serem criados em “lares decentes”.

Um breve momento de curiosidade e uma busca pelas fontes é quanto bastaria para desencantares isto. Mesmo sem elas, é conhecimento comum que os ciganos foram perseguidos durante séculos na Europa. É matéria dada em aulas de História.

ai a minha tensão

“Jonathan aproximou-se de um dos corpos, arrancou a máscara que lhe cobria a cara e viu que não eram ciganos, mas sim elfos negros.

– Elfos negros, eu sabia! Tenho a certeza de que nem mesmo os ciganos seriam capazes de ajudar Drácula! – exclamou, […]”

ZUZARTE EU VOU ESGANAR-TE

ALGUÉM ME PARE, EU VOU ESGANÁ-LO

Ninguém se surpreende quando, ao abrir o caixão, Jonatã revela apenas uma caveira dourada.

Jonatã, tenho notícias francamente óbvias.

its a trap

 

“Quando Jonathan se aproximou do crânio, os olhos deste começaram a brilhar e a boca abriu-se; de súbito, o rapaz sentiu-se fraco e o crânio começou a sugar-lhe a alma, levando-o a gritar de dor e de angústia à medida que a sua alma lhe deixava o corpo. Brok assistia ao espectáculo e tentou rachar o pequeno crânio com uma machadada, mas sem efeito. Iori tentou agarrar a alma de Jonathan mas não conseguiu.

– NÃO, TU NÃO VAIS TIRÁ-LO DE MIM – gritava ela, esforçando-se para salvar a alma do seu amigo.”

 

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Amigo o santo tanas. Tu queres é salsicha, rapariga, não mintas. Nada contra, mas porra, admite-o de uma vez por todas.

E a este ponto sinto-me exausto, torpe. Brok lá desembainha a espada de Jonatã, a Vingadora, e espeta no crânio, que se desfaz imediatamente. O nosso herói sociopata cai ao chão, pela primeira vez em toda a história sofrendo de forma minimamente perceptível. O grupo leva-o dali para receber alguns feitiços de cura, coitado do rapaz que quase foi “desalmado”.

Sim, essa expressão é usada no texto. Estou a citar.

Um espião mágico observa toda a cena. Voa de volta para o castelo de Drácula. O titular vilão continua sentado no trono, a tomar o chá de camponês das cinco. O espião revela o fracasso do novo plano.

“Então ele continua vivo!!! Todas as minhas tentativas foram um fracasso, o ataque dos orcs e dos centauros falhou, os Dragões Negros foram derrotados, a vampira que eu mandei foi decapitada, a tempestade falhou, Vhan e Kalthazad moreram, e o pequeno Lich foi destruído … Agora só me resta estar preparado para a sua chegada, ou tudo estará perdido.”

Tudo? Tudo o quê? Qual é o teu plano? Que porra queres tu? Sim, sim, dominar a Europa, cobrir o mundo de trevas eternas, mas porquê? Porque sim? Porque te deu na real gana? Porque deves alguma coisa ao Belzebu depois do torneio de póker infernal?

Porque porra me incomodo a perguntar?

É isto. É isto o capítulo 13. Chegado aqui, sinto-me exausto. Mais dois capítulos para embrulhar O Filho de Odin de uma vez por todas. Só mais dois. Quero esganar alguém. O mundo é um lugar negro, desprovido de esperança, em que nada faz sentido. Quero que a morte térmica do Universo chegue amanhã. Nem o Brok me vale. Estou sozinho nesta etapa final. Tenho de a enfrentar com coragem, com perserverança, com sentido de dever.

Bem. Até daqui a dois anos!

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3 comments on “O Zé Lê “O Filho de Odin”, de João Zuzarte Reis Piedade – Capítulo 13

  1. silvapedro30
    Março 28, 2016

    Ès lindo! Casa com alguém, não comigo, mas alguém.

  2. João Ricardo
    Maio 23, 2016

    Como é que não gostas de Dragonforce Zé? Vá tem calma. Mais dois capítulos e este pesadelo termina.

  3. l.i.s
    Dezembro 28, 2016

    Não há mesas suficientes para virar por cada frase de “Filho de Odin”, e Brock WTF porque é que nos fizeste isto?? A melhor personagem até então desistiu da narrativa para sair e tornar-se num modelo Estado-Unidense (a pesquisar como referência Brock O’Hurn).

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