The Corner Club

Onde se comenta a narrativa enquanto se beberrica chá. AVISO: Segue-se conteúdo sugerido a adultos.

O Zé Lê “O Filho de Odin”, de João Zuzarte Reis Piedade – Capítulo 14

Algures no Multiverso, uma vaca acaba de parir um cordeiro, um relâmpago atingiu uma pessoa enquanto estava a ser comida por um tubarão e eu tive uma noite louca de pinanço.

Pois é. Cá estou eu de novo, retornado das brumas qual figura sebastiana. “Mas Zé, meu impoluto naco de gajo”, ouço-vos dizer, “tu no fim do capítulo passado disseste que só voltavas daqui a dois anos, porque defraudas as nossas espectativas desta maneira?” Porque vivo para vos surpreender, meu adorado público. É atrasos de meses quando digo que publico para a semana, e publicações com meses de antecedência quando digo que publico daqui a anos.

A vida com surpresas assim tem mais gosto.

Espero que tenham passado boas festas. Não vou perguntar se foi um bom ano para vocês; a teoria universal mimética da Internet é que 2016 foi um ano de merda. Desde o Brexit ao Trump ao genocídio sistemático de pessoas mais ou menos fixes, não há muito para dizer, para além de experiência anedótica, que possa safar a coisa. Que vivas em tempos interessantes, diz a expressão, mas preferia que tivesse mais a ver com bons filmes e bons livros que a ameaça de um apocalipse nuclear ou climático.

No meu caso, foi … interessante. Ano de viragens. Conheci gente gira, viajei para partes curiosas do país, publiquei um conto. Dizem que está bom. Eu também acho, e diria até que o trabalho dos meus colegas no coiso está excelente também. Vou deixar que vocês sejam os juízes na questão. Vão lá comprar a antologia; valorizem bom trabalho.

Mas não foi para lerem as minhas preocupações existenciais e o meu marketing badalhoco que vieram cá. Vieram porque têm fome e sede de achincalhanço. Pois bem; temos aqui achincalhanço para dar. Para vender é que não, porque ninguém o compra.

É pena. Gostava de fazer uns cêntimos à conta disto. Ajudavam no meu contínuo processo de rechear a epiderme com banha. Quiçá continuar a respirar, produzir estes textos com mais regularidade …

Bem. Eis-nos chegados ao penúltimo capítulo de O Filho de Odin. Esperava escrever um ensaiozito, para continuar a encher chouriço e fingir que há algum mérito literário adicional na leitura da minha diatribe, mas francamente já escrevi palavras quanto baste para igualar a contagem de palavras do próprio livro, e ainda nem o acabei de esmiuçar. Portanto;

A CHEGADA DAS TROPAS

Décimo quarto capítulo, Zé. Só mais um bocadinho. É só mais um bocadinho.

Manic Scribe

Sómaisumbocadinhosómaisumbocadinhosómaisumbocadinhosómaisumbocadinho

Este, caros leitores, é um capítulo … difícil de descrever. Já li capítulos hilariantes, já li capítulos mirabolantes, já li capítulos irritantes, mas isto, isto deixa-me especialmente aturdido. Não porque comete alarvidades contra tudo aquilo que consistiria uma narrativa decente; comete, e não poucas vezes. Não porque há coisas a acontecer nesta história que me deixam à beira de uma trombose; já tive várias, estrebuchar no chão enquanto espumo da boca já é rotina desde que comecei a ler isto.

Este capítulo, este capítulo …

O grupo de Jonathan e de Van Helsing prosseguiu viagem depois de Jonathan ter recuperado. Encontravam-se apenas a um quilómetro do castelo de Drácula, mas uma colina bloqueava-lhes o campo de visão. Mal chegaram ao cimo, Jonathan e os outros viram um enorme castelo preto erguer-se no meio de uma planície negra. Tochas brilhavam de todas as torres e bandos de morcegos voavam em círculos, à volta das muralhas. Um cheiro pestilento a morte pairava no ar. No topo do castelo, pairava uma nuvem negra, de onde saíam relâmpagos, acompanhados de trovões, que iluminavam a planície. Brok sentiu um arrepio e comentou:

– Pronto… acabou-se, nós não conseguimos passar por ali.

– Precisamos de um milagre para que possamos entrar naquele lugar horrível – acrescentou Te’Chall.

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onde porra começo

Mais uma vez, uma oportunidade perdida para algum diálogo, alguma independência por parte das personagens secundárias. O chefe está ferido. O que fazem? Aguardam enquanto o menino recebe beijinhos suficientes na ferida até que cure. Um quilómetro depois (ou dez, ou quinze milhões, ou qualquer outra distância arbitrária no meio deste completo caos de medidas de distância), lá chegam a Mordor de desconto. A descrição é o que é. No meio disto, aprendo que o meu gosto com homens é mais merda do que pensei, com Brok a ser um cobardolas sem razão nenhuma ,e Te’Chall, que cozinha poções para a imortalidade e comete milagres rotineiramente, comenta a necessidade de um como se fosse uma coisa inaudita.Turbo Facepalm

Compreendam. Isto nem é das coisas mais graves que já li na minha vida. Já passei-me por muito pior em capítulos anteriores. O problema é que isto vem no seguimento de 13 outros capítulos. A minha inesgotável paciência começa a esgotar-se.

E logo depois,

Ainda mal tinha acabado de falar, quando, de repente, dois homens – um com armadura amarela e outro azul – apareceram por detrás do grupo. Um deles, tomando a dianteira, disse:

– Então, sejamos nós o milagre… Muito bem, tropas, montem aqui o acampamento!

Deus Ex Papás? Deus Ex Exército?

deus-ex-wat

Mais de 10 mil soldados, com mais quinhentos paladinos italianos, montam tenda nas imediações. As figuras de azul e amarelo são, claro está, Uther Strongheart e Boeurn Seterwind, pai e tio de Jonatã, cuja diferença é unicamente a coloração, talvez porque ajuda a distinguir as figurinhas no Warcraft 3.

– Olá, filho!

– Que… que estás aqui a fazer?

– Meu filho!… não estás à espera que eu te vá deixar lutar sozinho contra Drácula, ou estás?

Ó meu grandíssimo filho de merda necrótica, seu escarro vaginal putrefacto, sua gota de sémen de Belzebu, que raio acabas tu de dizer?!

Embarcas o teu filho numa busca estúpida, porque um sonho assim to disse. Metes o idiota a combater o Mal pela Europa dentro. Nem tens a decência de lhe dizer um adeus. Não; é largá-lo no cu de Judas à espera de um comboio. E tens a distinta lata, o descaramento, a cara de pau, de dizer uma coisa dessas?

Eu sei. Eu sei; isto é uma aventura juvenil. A coisa só acontece se  os pirralhos tiverem pais absolutamente irresponsáveis. É um desperdício de energia mandar vir com isto, mas eu não consigo conter-me. Eu não consigo ficar quieto a ver esta merda acontecer como se nada fosse! Isto é horrível! Isto é péssimo! Isto –

[diz Jonatã] – Pai, o exército que tu trouxeste é grande e a força de armas enorme, mas não chega para derrotar as forças de Drácula.

Como é que sabes? As forças de Drácula não são descritas em parte alguma. Podes transformar-te num elfo super-guerreiro com facas de serra circular, e podes transformar os teus guerreiros em einherjars invencíveis,  isto para não falar no cardápio de super-poderes e artefactos que tens, mais os da tua equipa Kumbaiah. Porque cona estás tu preocupado?

Isto ilumina, já agora, uma das maiores falhas de toda a narrativa; a falta de qualquer tensão narrativa séria. Qualquer história precisa de um conflito motriz por trás da mesma; um problema central à trama, trabalhado ao longo da mesma, aumentando ou diminuindo a tensão de acordo com as necessidades para produzir uma história envolvente e empolgante. Chegados aos capítulos finais, queremos essa tensão bem no alto, para produzir um efeito de catarse lá pelo fim quando a tensão é resolvida. Uma boa história é como uma boa sessão de pinanço; quer-se excitante, variada, num crescendo que leve a um clímax agradável a todas as partes envolvidas.

Ora, fosse esta uma sessão de pinanço, seria o monocromático pulsar de um martelo pneumático com um dildo na ponta, introduzido a seco e sem um único sussurro de amor metido ali pelo meio. Barulhento, doloroso e, acima de tudo, aborrecido.

dildo-on-saw

… ok, eu sei, depois de ver isto, a analogia cai aos pedaços. Isto não é aborrecido. Eu também quero ver isto a funcionar. Merdaporraraiosputacaralhomerdamerdamerdamerda –

technical

É como fazer o amor com o cadáver flácido de um pato. Pode parecer curioso no início, mas a coisa rapidamente fica mecânica, fria, mole e só satisfaz ornitólogos necrófilos. Para não falar da escamação esquisita no prepúcio, que fica difícil de explicar ao urólogo.

Sim.

sim faz sentido não façam perguntas caluda

Aos poucos, começaram a aparecer inúmeros soldados de raças diferentes. Dez mil orcs, dois mil e quinhentos gnomos e dois mil e quinhentos anões, oitenta mil altos elfos (Homo Fata alfar Escandinavus)

A tua definição de inúmeros merece alguma atenção, Zuzarte. É que estes parecem-me ser números razoavelmente exactos e, vá lá, numeráveis, para um exército. Mas, por incrível que pareça, não é esse o detalhe que mais desperta o meu interesse.

Quem me conhece sabe que eu sou daqueles tipos esquisitos que adora tudo o que tenha a ver com elfos. Se tem orelhas pontiagudas, é esguio, usa coisas elegantes no geral e é muito mágico e etéreo e coisas afins, lá estou eu acampado, com os meus dicionários de Quenya e Sindarin, a recitar preces a Elbereth com os melhores. Praticamente tudo o que está associado à figura do elfo, tanto na mitologia onde figura quanto na cultura popular, me atrai. Ora, dito isto, um dos detalhes mais comuns e interessantes dos elfos é que, por muito ou pouco pinanço que façam, têm a tendência de ser pouco numerosos e férteis quando comparados com os coelhos fornicadores que são os humanos.

É com algum espanto, portanto, que noto que os altos elfos, em todo o seu esplendor, constituem a vasta maioria dos exércitos do Bem, largamente superando os outros contingentes em várias ordens de magnitude.

Eu não vi os elfos a terem tal representação na história. Nunca passaram de figurantes. Fico contente, apesar de tudo, que há ao menos um universo onde têm putos suficientes para se darem ao luxo de apresentar oitenta mil soldados a um esforço de guerra.

Gostava que fosse outro universo, mas não se pode ter tudo quando se ama os Quendi. Faz parte do tema.

into-the-west

An sí Tintallë Varda Oiolossëo // ve fanyar máryat Elentári ortanë, // ar ilyë tier undulávë lumbulë; // ar sindanóriello caita mornië // i falmalinnar imbë met // ar hísië untúpa Calaciryo míri oialë. // Sí vanwa ná, Rómello vanwa, Valimar!

Aaaah, Valimar.

Tenho de voltar à Terra Média um dia destes. E não me censurem, preciso de alguma coisa positiva e tragável para continuar minimamente são!

De qualquer modo, reúnem-se os generais deste feliz bando de palermas. Com nomes e nacionalidades. Não são de todo relevantes para a história, portanto ninguém quer saber. O plano? Oh, doces crianças de Verão, que sabem vocês do Inverno;

 – Este é o nosso acampamento! – elucidou, apontando para os pontinhos brancos. – O castelo do Drácula encontra-se apenas a um quilómetro de distância, será aí que travaremos a batalha. Com cento e cinco mil soldados conseguiremos vencer.

– Sim, mas será um pouco difícil – comentou Aust. – Uma grande parte da força militar de Drácula já está morta, e nem mesmo as flechas élficas ou as balas benzidas dos humanos poderão ser  bem sucedidas. […]

Quoi?

Calculo que te estejas a referir a mortos vivos, Zuzarte. Eu, ah, tenho uma pergunta. Para que raio servem balas benzidas e flechas élficas se não podem lidar com grande parte da força inimiga? Que qualidade têm elas que as diferenciam de balas e flechas normais se não podem dar cabo de ameaças sobrenaturais como cadáveres ambulantes? E se são assim tão inúteis, porque raio sequer as consideram num campo de batalha?

[…] Enquanto Kalthazad estiver vivo, o exército dos mortos-vivos [ahah!] continuará no controlo de Drácula. E esse será um grande problema para nós.

Oh por amor das minhas inúteis gónadas.

 – Então os nossos problemas estão em parte resolvidos – observou Jonathan.

– Porquê? – perguntou Aust.

– Porque quando eu atravessei uma floresta, do outro lado da montanha, encontrei a cabana do Kalthazad. Entrei lá com Kenchi e Te’chall e quando o necromante tentou assassinar-nos, Te’Chall fez um contrafeitiço e matou-o.

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Eu não vejo nada a dizer “Destrua a criatura alvo”.

É uma coisa rara nesta história, quando algo mirabolante acontece e não há um pingo de congratulação. O diálogo que se segue é mais ou menos”Oh, não podemos matar os mortos vivos enquanto o Kalthazad anda por aí a dizer macumbas. Ah, olha, o curandeiro africano que cozinha poções de imortalidade matou-o com uma carta de Magic: The Gathering. Ai bem, que é para o almoço, alheira frita?”

 – Acho que tenho uma ideia!!! – anunciou Thröst. – Lutaremos contra as forças de Drácula durante o dia. A luz do Sol, mal toca num vampiro, transforma-o em cinzas. Assim venceremos!

Sim, é um bom plano, Thröst; mas funcionaria melhor se a luz do Sol iluminasse alguma coisa neste país – alertou Jonathan.

– Que quer dizer com isso?

– As nuvens cobrem toda a Roménia, Thröst. Isso impede que a luz do Sol ilumine a terra, permitindo que os vampiros andem a seu bel-prazer de noite e de dia… Mas foi bem pensado; se Drácula fosse estúpido o suficiente para cair nessa, teríamos a vitória mais rápida desde que Völstagson, o grande chefe dos Vikings, acidentalmente encomendou seis mil capacetes vikings com os cornos para dentro. Isso não vai resultar, temos de pensar noutra coisa.

Após umas horas de discussão de planos, Jonathan teve uma ideia e disse:

– Drácula já deve saber que nós acampámos aqui e pode lançar um ataque a qualquer momento. [sic] E Jonathan passou a explicar o seu plano, com o qual todos concordaram, pondo-o em acção.

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Primeiro, esta imitação rasca de actor de porno gay dinamarquesa (Thröst, a sério?!) dá a coisa mais estupidamente óbvia como plano para lutar contra vampiros. Depois, ignora por completo o facto de que a puta da Roménia está coberta de lés a lés por nuvens Mordor™ – mesmo que ele tenha viajado de forma subterrânea, e nada aponta para que o tenha feito, o sítio onde estão a ter esta reunião de horas a fio está a céu aberto. Depois, cabra que me vazou, vem este palerma falar este cagalhoto de história sobre seis mil capacetes viking com os cornos para dentro, esta amostra de aprendiz de História, lembro-vos!, que se foda o mínimo de verosimilhança. Para finalizar este bolo de estrume de baleia, demoram horas a falar sobre um plano QUE NUNCA DETALHAM EM PARTE ALGUMA ANTES OU DEPOIS E COM O QUAL TODA A GENTE CONCORDA PORQUE BORA CHUPAR A PILA FLÁCIDA DESTE FILHO DE UMA GRANDESSÍSSIMA

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Sai Jonatã da tenda para pôr-se no paleio com um elfo, de nome Elan. É um Ërlan, porque o Zuzarte bem gosta de abusar nos tremas por razões que escapam os mais sábios dos linguistas. Têm um momento Attenborough, com o qual não vos vou maçar, sobre elfos que montam águias gigantes e como as águias são aves de Estínfalo emigrantes. É uma página inteira para isto; nunca mais vamos ver Elan ou os Ërlan ou as águias em todo o resto do capítulo e, suspeito eu, do livro, portanto tudo isto foi um desperdício do nosso tempo. Porque Jonatã é uma Mary Sue de proporções bíblicas, não pode ir a sítio nenhum sem que alguém lhe preste vassalagem ou bajulação imediata.

Continuou o passeio até que sentiu cansaço. Então, resolveu voltar à tenda, procurando repousar de tanta azáfama.

O que há em mim é sobretudo cansaço —

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o suposto em alguém,

Essas coisas todas —

Essas e o que falta nelas eternamente —;

Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).- 64.

Finalmente, temos uma descrição do exército de Drácula, que monta formação fora do castelo. Setenta e cinco mil vampiros. Só isso.

Mantenham este número presente enquanto a acção se desenrola. Vai tornar-se muito relevante para pontos futuros.

Drácula manda um quarto do exército avançar contra o acampamento das forças do Bem. Estes não encontram nada; como um exército tão grande se escapula pela planície sem ser notado por seres supostamente sobrenaturais e com afinidade pela noite e pela escuridão, não sei. De súbito, do nada, aparece Uther, martelo em riste, e trinta mil soldados, sabe-se lá aparecendo de onde, atacam os vampiros pela retaguarda.

Embate sangrento!

Vai-te lixar, Zuzarte.

A vanguarda de Drácula cai prontamente. No meio disto, surgem vinte tiranossauros, com selas especiais, a carregar cinquenta elfos negros de cada lado, mais uma boa quantidade mais às costas.

Não, eu não estou a inventar.

O condutor guiava o seu animal com rédeas extremamente compridas e, ao longe, ouviam-se palavras e gritos de guerra em elfo. A dada altura, um dos condutores pegou no seu corno de batalha e soprou uma nota.

mumakil

Qualquer semelhança é, com certeza, uma grande, grande coincidência.

Depois Uther abana a cabeça, dá o sinal, e os mumak- uh, tiranossauros, levam com tiros de canhão até morrerem.

Provando que tudo isto foi tão eficaz quanto um peido num tornado.

À queda dos elefantes – descrita como aparatosa e repleta de mortandade para o lado do Mal – sobreviveram dez mil elfos negros/alemães do Sul. Sim, são elfos barra alemães do Sul. E sim, sempre que são mencionados, o facto é repetido à exaustão, mas antes de irmos a esse ponto, um pouco de matemática.

abacus-counting-kid

Representação fiel da minha figura na montagem deste segmento.

Do lado do Bem, temos um exército de 105.000 soldados, com um sem número de gente capaz daquilo a que chamaria Anime Bullshit©. O exército do Mal, entretanto, tem um efectivo total de 75.000, mais “10.000” elfos negros/alemães do Sul (a matemática diz 3000, no máximo; para que fossem 10.000, cada dinossauro tinha de ter 500 elfos negros/alemães do Sul montados, o que, pelo que diz a história, não é o caso). O exército do Bem está melhor equipado e melhor motivado – a carga de cavalaria do Mal acaba de morrer toda com uma salva de canhões arrancadas ao cu do autor. Já para não falar da clara vantagem numérica que o Bem tem.

Relembrem-me; os parolos do Bem estão a queixar-se de quê, e porque raio devia eu importar-me? Quanto muito, o Drácula é um idiota por ficar e lutar em condições onde a sua derrota é mais que garantida, não fora ele um vilão das manhãs de Sábado da SIC. Tu não és Alexandre o Grande, Drácula. Não há brilhantismo táctico que te salve deste desastre. Ainda nem mataste um único soldado inimigo!

O general dos elfos negros/alemães do Sul é descrito com grande pompa e circunstância como um ser muito malvado, que usa armadura negra e afiada, com muitos espinhos e olhos na espada. Lidera a carga contra a vanguarda do Bem, apesar da mesma estar em clara superioridade numérica e nada daquilo fazer sentido.

Os olhos de Uther começaram a brilhar e, depois, soltou um grito que foi ficando cada vez mais grave. Um minuto mais tarde, Uther transformara-se num dos avatares de Odin. O seu tamanho aumentara e a sua pele ficara com uma cor azul acizentada. Os olhos adquiriram um tom azulado intenso. Empunhava uma Zweihander¹ mágica e estava de tronco nu. Nürnen [o elfo negro/alemão do Sul] desembainhou a espada e, com a sua horda de elfos, combateu contra os seis lutadores. Aust puxou das suas duas adagas, Galanodel (Suspiro de Lua) e Naïlo (Brisa da Noite), que em tempos passados o salvaram em incontáveis batalhas. A seguir, gritou algumas palavras em elfo. Thröst começou a manusear o seu machado de guerra e soltou um grito. Kranyatz pegou no martelo e rugiu. Quanto a Khaball e Jebbdo puxaram das suas armas e gritaram fortemente. Seis mil contra dez mil, uma desvantagem enorme para os elfos negros/alemães.

¹Espada alemã gigante que requer imensa força para ser manejada

you-dont-say

Tudo isto [sic]. – Nota do Zé

Sim. Sim, ficamos com um velho super-guerreiro, deixem-me rir que amanhã fico com cieiro, e depois temos um momento Oprah Winfrey, em que toda a gente tem um urro à Ronaldo debaixo do assento.

puta que pariu este capítulo

Claro, toda a gente faz uma figura super épica, com Dragonforce como banda sonora. Aust às navalhadas élficas, Thröst enfrenta os oponentes  com “uma força acima do normal” (descreve o seu possante pénis de porno bem a jeito), Kranyatz faz que, com cada golpe, “saísse um trovão que electrocutava inúmeros soldados atacantes”, e de repente o rei elfo negro/alemão do Sul transforma-se num avatar de Loki, porque claro que temos de ter um Vegeta para o nosso Son Goku.

Uther e Nürnen puseram-se em posição e o combate começou. Nürnen tentou ferir o seu adversário várias vezes, mas Uther defendia-se e respondia com um murro ou com um pontapé na cara ou no tórax. Continuaram a lutar até que Nürnen fez um golpe profundo no peito de Uther. Aust olhou para ele e ficou horrorizado, mas Uther não morreu; pelo contrário, ficou com mais força. Obrigou Nürnen a deixar a defesa cair e espetou a sua Zweihander no adversário, [sic] A seguir, atirou-o ao ar, enquanto lhe aplicava vários golpes. Depois, enterrou a espada nas costas de Nürnen e deixou-se cair. Quando os dois já estavam caídos por terra, uma onda saiu da espada e fez com que todos os elfos negros/alemães morressem. […]

[…] As coisas estavam a ficar complicadas para a facção de Drácula, […]

Headdesk

Não há palavras. Não há. Nada do que possa ser dito pode bater aquilo que acabei de citar. Nada. Sinto-me pequeno e frágil, um macaco perante um monólito negro.

Das traseiras do combate, Jonatã toca uma trompa, e Arthos Peido-de-F16 chega com um exército de cinco mil valquírias, mais outros tantos grifos. Aparentemente, a barreira que os mantinha de fora rompeu-se, qual hímen violentado, e o golfo numérico aumenta.

No meio de um combate francamente entediante de tão unilateral que é, eis senão que o céu fica vermelho, e demónios surgem das profundezas dos infernos. Seguramente alguma tensão vai acontecer! Seguramente, vamos ter alguma acção digna de nota!

Não. Jonatã transforma-se num elfo super-guerreiro. Começa a lutar com os demónios, e a mãozinha começa a ser torcida por um. Com o mínimo de ameaça à sua integridade física, a vagina ambulante mor solta um valente “JONATÃ!!!” e é também possuída por Anime Bullshit©.

Zuzarte dedica duas laboriosas páginas a descrever a miríade de divindades em que cada membro o gangue de Zuzarte depois se transforma, e eu não vos vou entediar com uma linha que seja disto. As roupas são ridículas, o conceito é ridículo, o mundo é ridículo e quero quinar.

Com uma excepção.

E Brok transformou-se em Magni, o filho de Thor; empunhava o martelo de seu pai, com duas faces: quando usadas, eram de tal maneira poderosas que seriam capazes de fazer aberturas no solo maiores que o Grand Canyon ou cortar grandes massas de rocha como se fosse manteiga.

Dou por mim a querer que este livro seja lido em voz alta pelo João Loy. Isto é algo que eu preciso na minha vida. Eu quero que o Vegeta da minha infância leia este livro em voz alta. Só tenho medo que isto provoque outro ataque cardíaco ao coitado do homem, e eu quero que ele continue vivo por largos anos ainda.

Quantidades industriais de Anime Bullshit© seguem-se, com muita música no background a berrar KAWAI DESU por entre Japonês de supermercado. Jonatã toca na puta da trompa outra vez e, como se o exército do Bem já não estivesse em modo tryhard overkill, convoca o exército fantasma de Gregos e Troianos, liderados por Aquiles.

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Qualquer semelhança é, com certeza, uma grande, grande coincidência.

Drácula atira os filhos e as noivas para cima de Jonatã, para ver se consegue matá-lo, e Jonatã faz deles cubos para sangria de vinho tinto.

Do alto da torre, Drácula olhava horrorizado o que acontecera aos seus filhos e às suas noivas; Jonathan olhou para a torre e viu Drácula entrar no castelo com a sua última noiva e com Malus. Ao ver isto, Jonathan chamou Van Helsing e Harker.

Juntos, entraram no castelo enquanto a batalha ainda decorria. Sem Jonathan se dar conta, Iori seguiu-o. Este seria, definitivamente, o dia em que Drácula iria morrer às mãos de um mortal, tal como tinha sido profetizado pelos deuses e pelo Cosmo.

E pronto. Fim de capítulo.

É isto. O clímax da história está a levar a isto.

Em qualquer história deste tipo, queremos sentir que o herói está a passar por adversidades e a superá-las graças às suas virtudes. Aqui, como em todo o livro, Jonatã é entregue a vitória praticamente de bandeja. Não precisa fazer nada; nenhum dos seus soldados morre, nenhum dos seus amigos é ferido, e assim que alguém é ameaçado na sua integridade física, alguém desencanta uma transformação à Dragon Ball para safar qualquer dói-dói com estalhardaços de força suficiente para abrir fendas no planeta.

Jonatã e companhia não são heróis. São desastres ambientais. Alguém os pare. Alguém me pare. Estou a tropeçar pelas ruas da loucura, boca rasgada num sorriso vesgo.

Só mais um capítulo.

Só mais um capítulo.

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2 comments on “O Zé Lê “O Filho de Odin”, de João Zuzarte Reis Piedade – Capítulo 14

  1. l.i.s
    Dezembro 27, 2016

    É só mais um xD para infelicidade nossa. Quem dera haver mais Zuzartes para serem achincalhados no cantinho do Zé. Penso que é por todos os fãs que digo: O teu sofrimento traz-nos prazer em formato de entretenimento. Força Zé!

  2. João Ricardo
    Janeiro 11, 2017

    Tá quase Zé. Se eu consegui tu tbm consegues. E não te esqueças que isto ainda tem sequelas xD Abraço e boa sorte para o próximo capítulo

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This entry was posted on Dezembro 27, 2016 by in O Zé Lê and tagged , , , .

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