The Corner Club

Onde se comenta a narrativa enquanto se beberrica chá. AVISO: Segue-se conteúdo sugerido a adultos.

O Zé Lê “O Filho de Odin”, de João Zuzarte Reis Piedade – Capítulo 15

Vocês pensaram que eu morri.

Eu sei bem o que andaram a cochichar pelos cantos. Que o Zé quinou de vez. Que o último capítulo o deixou um vegetal baboso a coçar as virilhas, atirado a um canto de um hospital psiquiátrico. Que o Diabo o raptou, para que maior mal não fosse urdido aquando a publicação, porque a inveja até ao rabo de Belzebu vai morder.

Mas como poderia eu morrer? Como poderia eu deixar este projecto inacabado, desleixado, abandonado?

É hora, meus filhos. É hora do juízo final. É hora de O Filho de Odin … terminar.

 

Time for the Jedi to End

Que eu depois tenho de ir ordenhar um papa-formigas.

 

XV – A LUTA PELA LIBERDADE

 

Nossa Senhora nos valha a todos nesta hora de provação.

Jonathan já se encontrava dentro do castelo, acompanhado por Van Helsing e Harker. A entrada era totalmente negra – até os móveis, as cortinas e o tapete de entrada. Na parede no cimo das escadas, estava um enorme quadro de Drácula com Malus e com Erzsébet.

Seguramente devem estar a pensar quem porra é a Erzsébet, dado que não é apresentada em ponto nenhum da história antes deste momento. Eu também não sabia, portanto fui googlar. Trata-se do nome húngaro para Isabel Báthory, a figura histórica por detrás da lenda da condessa sangrenta, a tal que, reza a história, tomava banhos de sangue para permanecer jovem e bela.

É só mais uma figura histórica atirada ao barulho porque sim, tal como tantas outras neste escarro, mas é o facto de que ela nunca nos foi apresentada que torna isto mais parvo.

Subiram as escadas e, no meio do hall de entrada, olharam para os lados. Havia uma porta ao fundo de cada um dos corredores; Jonathan e Harker tentaram a da esquerda mas, mal a abriram, um dragão que se encontrava a poucos metros da porta soltou um rugido aterrador.
– Vamos tentar a outra! – disse Jonathan, fechando a porta com quanta força tinha.
– Boa ideia!!! [sic] – respondeu Harker, também assustado.

Aparentemente, Drácula escolheu para casebre um daqueles castelos assombrados dos circos itinerantes, porque não só o décor praticamente grita cliché, há corredores de portas com conteúdos ao calhas. Porquê?

 

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CACHORRINHO!

 

Assim que abriram a outra porta, viram umas escadas que ainda levavam a uma outra porta; subiram-nas e, pouco depois, encontravam-se numa espécie de sala de jantar com um armário encostado à parede.

O armário era muito semelhante aos que os humanos usam como bar, mas em vez de uísque, ou qualquer outra bebida, as garrafas estavam cheias de sangue.

Ok. Pausa.

Eu vou fazer uma coisa que ainda não fiz em anos de O Zé Lê. Fiz alusão ao assunto, ao de alto, a certa altura, mas agora torna-se imperativo focar uma luz bem gorda nisto.

Dizem os créditos do livro que a revisão literária esteve a cargo de António Tavares. Quer isto dizer que, supostamente, António Tavares passou os olhos pela passagem acima citada, no manuscrito original, e achou que estava bem. Que funcionava! Que podia ser impressa em papel, colada entre capas e vendida aos incautos.

Vá vossa mercê levar uma chapada de uma pila.

Um armário não se usa como bar, por amor de Deus! Nada disto faz sentido! É uma falha de léxico gritante, básica, de um puto que aparentemente nunca pôs os pés num café na vida, e era o seu dever, senhor Tavares, como revisor, de notá-lo e corrigi-lo. Coisa que deixou de fazer a meio do livro.

Não me interprete mal; estivesse eu nos seus sapatos, eu também teria desistido a meio caminho de pôr qualquer freio a isto. Mas se o tivesse feito, mereceria na mesma um tabefe de uma erecção do Mandingo.

Para referência futura; balcão. Garrafeira.

 

 

Continuando; encontra o Trio Mary Sue uma figura que não estava à espera de ver novamente na narrativa; Gilles de Rais, o mordomo pessoal do Drácula.

Não. Não, eu não vou dactilografar isto tudo. Nem pensar. Nunca. Niet. Nein!

 

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Chamem-me de preguiçoso quantas vezes quiserem. Olhem bem para aquela página. Olhem bem. Já de si odeio esta estratégia pífia de trucidar o Português para tentar reproduzir sotaques. A meu ver, raramente funciona para o propósito; não adiciona nada ao retratar da personagem para além de tornar a leitura mais difícil quando uma mera nota descritiva seria o suficiente para deixar que o leitor imagine os tiques fonéticos específicos. Muito mais me impressionam autores que reproduzem o vocabulário dos dialectos que as personagens usam, esses sim muito mais naturais.

Já agora. Maricas? A sério? Essa é a tua melhor one-liner, Jonatã?

Sobe o trio para mais uma sala, desta feita com um candelabro negro, com velas negras e chamas pretas e escuridão quase total para além da luz preta das velas. Se eu começo a comentar isto, vou dar em chêchê, por isso em frente. Esta particular sala de boss de videojogo é a arena para o combate com Erzsébet, que aparece e reaparece que nem um relâmpago. Esta apanha Jonatã pela garganta, eleva-o à parede e, por instantes, sinto esperança em mim.

Nesse momento, Iori entrou na sala e saltou para uma parede. Erzsébet olhou para trás e viu-a subir pela parede e caminhar na sua direcção. Iori agarrou as asas de Erzsébet e começou a arranhá-las; a vampira gritou e largou Jonathan. Van Helsing e Harker ouviram-na e, à luz de um relâmpago, viram que Jonathan ia cair e tentaram evitar-lhe a queda. Iori ainda continuava agarrada às asas da vampira, que tentava a todo o custo atingir-lhe a cabeça atirando-a contra a parede, mas não conseguiu. Os olhos de Iori ficaram amarelos e depois disse:

– Podem ir, eu trato dela.

Iori e Erzsébet começaram uma luta violenta e a vampira alcançou Iori, ameaçando-a com uma faca, ao mesmo tempo que dizia:

– Eu vou tomar banho no teu sangue e depois oferecer o teu cadáver aos Worgs, ficando os ossos para Drácula.

Iori pegou na mão que agarrava a dela e partiu os dedos da vampira; a seguir, desembainhou a espada e perfurou o peito, matando a última das noivas de Drácula. Depois de se recompor, voltou para a batalha que estava a decorrer à porta do castelo.

E é isto. Isabel de Báthory junta-se a Gilles de Rais no Clube das Figuras Históricas Violentadas. Como podem ver, foi um confronto cheio de pathos, um clássico de uma cena de acção que não poupou uma vírgula de suspense e tensão ao leitor. Ficamos, sem dúvida, com a ideia de que foi uma luta violenta.

Catfight

Mais ou menos isto.

 

Se pensam que este foi o combate mais excitante do livro, enganam-se! O grupo encontra Malus a seguir, o filho de Drácula!

[Diz Malus] – Olha, olha, Jonathan Strongheart. Temo que a tua viagem acabe aqui, pois não passarás!

– Enganas-te. Lutei demasiado, não é agora que vou desistir! – disse Jonathan com um certo enfado.

Jonathan desembainhou a espada e pôs-se em posição de combate, Malus fez o mesmo. O combate durou apenas alguns segundos, terminando quando Jonathan enterrou a sua lâmina no coração de Malus, transformando-o em cinzas. Assim morreu Malus Draconus Tepes, filho de Drácula e príncipe dos vampiros.

Eu começo mesmo a achar que não foi só António Tavares que cansou-se. Parece que também Zuzarte cansou-se de contar a história. Está a despachar familiares de Drácula como quem vira um hambúrguer numa frigideira.

O próprio Drácula parece não achar piada. Aparece logo a seguir, a citar Saruman (“eu poderia facilitar-te as coisas e converter-te … mas tu escolheste o caminho…DA DOR!!! [sic]”). O trio degladia-se com Drácula e depois ele morre.

O quê? Estão à espera de mais? Zuzarte dá-nos só um pouco mais do que Malus mereceu para o combate final. Este é o culminar da viagem! O defrontar do adversário final! Dois ideais irreconciliáveis, um duelo dos destinos!

Acaba em dois parágrafos que não tenho pachorra de reproduzir. Basicamente, Jonatã transforma-se em elfo super-guerreiro e mata Drácula à 300, pontapeando-o de uma janela fora.

Citações chave:

[Diz Jonatã] – Tens razão, eu posso morrer, mas lutarei por aqueles que amo, por aqueles que me ajudaram…E LUTAREI PELA LIBERDADE!!!

[…]

– Uma falsa coroa para um falso rei, uma coroa morta para um rei morto!

[…]

Felizmente, não morreu nenhum soldado, pois os Paladinos criaram uma barreira mágica à volta de todo o exército protegendo-o de qualquer mal.

Colosso literário.

Porque isto trata-se de um videojogo, o castelo começa a ruir e o grupo foge. Toda a gente dá vivas e hurras, celebra Jonatã, felicidade e vitória. Iori aproxima-se e beija-o. Te’chall …

– Er…Brok… [sic] – disse Te’Chall

– NEM PENSAR! – gritou ele com o machado erguido.

– Olha! Olha! Eu só ia sugerir para irmos para casa!

HAHAHAHAHAHAAHAHAHA LOLOLOLOL NO HOMO

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Uma hora depois Van Helsing, Harker e Mina despediam-se de Jonathan e dos seus companheiros.

– Adeus, Jonathan; nunca nos esqueceremos de ti! – disse Van Helsing.

– Adeus, Van Helsing, vai com Deus.

Bram aproximou-se de Jonathan e ambos apertaram a mão.

– Vou escrever um livo sobre este acontecimento histórico: com as notas das viagens de Van Helsing e Harker escreverei um livro que terá muito sucesso e entrará na história da literatura.

– E como se irá chamar?

– “Drácula, de Bram Stoker”, mas apenas existirão dois heróis no livro.

– Então, sendo assim, pode ser Van Helsing e Harker.

 

Fuck You Gif

 

Como querem vocês que eu tenha palavras para isto? Como?

E acaba. Há um breve epílogo de página e meia. Iori e Jonathan casam-se e têm filhos (FODERAM, ATÉ QUE ENFIM), idem aspas para Kenchi e Mace, Brok e Te’Chall são NO HOMO mas vão cada um para a sua tribo, as raças de fantasia que fomos encontrando começam a conviver melhor, e depois temos isco para sequelas.

Passaram-se muitos anos e o castelo de Drácula continuava em ruínas. De repente, por detrás de uma nuvem de poeira, um homem encapuzado, semelhante aos que Jonathan tinha visto em Madrid, apareceu no local do campo de batalha e dirigiu-se até aos destroços da torre de Drácula. Assim que lá chegou, desenterrou a bola de cristal negra que pertencera a Drácula.

– Da próxima vez, seremos nós os vitoriosos! – disse ele, enquanto abandonava o local.

Quem é este homem misterioso? Que quer ele dizer com “Da próxima vez”?

O que é certo é que Drácula, antes da grande batalha, dissera: “Eu vencerei!” Que quereria ele dizer com isso?

Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe.

 

Its-over-its-done

 

Alguns capítulos atrás, aludi ao facto de que espremer conteúdo de relevo a esta leitura é de uma dificuldade exponencial e, chegado a este ponto, com toda a necessidade de um dénouement de jeito, nada me vem à cabeça. Só sai pó, num cuspir seco e embaraçoso; nem achincalhar apetece. Sinto-me como o Frodo depois da demanda, ferido e mastigado, com cicatrizes na alma que nunca vão curar.

Comentar a estrutura narrativa é praticamente inútil; só há tantas maneiras de dizer “por amor da Santa Albertina, não façam isto”, ou “estão a ver isto? Façam exactamente o contrário”. E a história em si? Comentá-la é, talvez, mais inútil ainda, principalmente porque este capítulo, estas personagens, selam definitivamente a obra como algo que não tem nada para dizer.

E isso irrita-me. Irrita-me profundamente.

Que queremos nós das histórias que contamos? Se alguma moeda existe que todo e qualquer ser humano reconhece, essa moeda é a história; as que vivemos, as que inventamos. São o meio pela qual nos conhecemos, a nós mesmos e aos que nos rodeiam. Como pessoas. Como tribos. Como sociedades. Procuramos significado nelas, algum sentido ou padrão que explique aquilo que os nossos sentidos agregam na nossa mioleira, por entre imagens daquele rabo magnífico que acabámos de reparar e o que vamos querer para o almoço mais tarde. Nós vivemos para contar histórias. É a linguagem universal do ser humano. O meio em si pode mudar; filmes, séries, livros, música. Mas essa necessidade, intrínseca à nossa condição, é comum a todos eles.

Não é uma coisa pequena. Ubíqua como é, torna-se fácil para alguns tomar a história como garantida. Farto-me de ver pessoas inteligentes a descartar o valor da mesma porque outros elementos chamam mais as atenções, desde efeitos visuais em filmes a certos truques dramáticos em livros.  Mas é o que sobrevive a tudo o resto. É o que define um clássico. É o que sobra quando tudo o mais falha.

Quando a história colapsa, tudo o resto colapsa com ela. É a queda que vaza tudo o resto de sentido ou propósito. A obra deixa de ter qualquer valor humano. Torna-se descartável. Ganha prazo de validade. Apodrece.

Para mim, essa é uma das piores tragédias possíveis a uma obra de arte. É a morte verdadeira, depois da carne ir com os cães. Poucas coisas me enfurecem mais que alguém a tentar vender-me uma história que de história tem pouco ou nada.

Chegados ao final de O Filho de Odin, depois de tudo dito e tudo feito, depois de tanta coisa que correu mal, é isso que o condena irrevogavelmente. É um sonho febril depois de uma semana passada em frente a um ecrã a jogar um cardápio de títulos e a ver um sem-fim de anime. É o vomitar de consciência de um adolescente que só acabou publicado porque teve todas e mais algumas possibilidades de o fazer, porque tem o nome e o dinheiro para abrir as portas que autores muito mais merecedores nunca verão abertas. Se este livro é comentário acerca de alguma coisa, é um comentário à profunda e magistral injustiça inerente ao mercado literário.

Que seja condenado ao esquecimento eterno. Raios me partam, preciso de uma bebida.

 

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One comment on “O Zé Lê “O Filho de Odin”, de João Zuzarte Reis Piedade – Capítulo 15

  1. João Ricardo Valente Medeiros
    Janeiro 10, 2018

    Finalmente esta jornada de podridão épica chega ao fim. Foram anos a dar refresh para ver se já tinhas dado update e todos valeram a pena. De facto, esta critíca foi a minha maior inspiração para começar a escrever e este livro realmente ajudou-me a perceber aquilo que NÃO se deve fazer. Mais uma vez obrigado. Pedir-te-ia para fazeres critícas às sequelas mas já sofreste que baste. Agora descansa que bem mereces e até a uma próxima.

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This entry was posted on Janeiro 4, 2018 by in O Zé Lê and tagged , , , , .

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